Filha das Sombras – Parte 3

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Filha das Sombras – Parte 3

Após uma longa viagem, finalmente chegamos em Córvia, ou melhor, nas ruínas do que um dia fora a cidade. Lá, senti as pontas dos meus dedos fumegarem — da mesma forma como eu, tantas vezes antes, havia me queimado enquanto fazia minhas poções. Olhei para Belisa, que parecia não sentir dor nenhuma. Ninguém parecia.

Continuamos nossa exploração do lugar. Aquele deveria ser o melhor dia da minha vida, porém, eu estava cansada, com saudades de casa e, principalmente, amedrontada. Podia ouvir um zumbido, um sussurro… aquela voz iria voltar, eu sabia. As construções de pedra clara, tão castigadas pelo tempo, não faziam meus lábios sorrir. Córvia parecia como qualquer outra cidade, a diferença é que essa havia sido abandonada. 

No fundo, eu sabia o porquê. 

— É lindo, não? — Belisa perguntou enquanto me puxava pela mão, me guiando. — Você precisa ver isso aqui.

Caminhamos rapidamente até uma parede de pedras que parecia muito mais antiga do que tudo que já havia visto. Ao redor, um mato alto era prova do poder do tempo. 

— O que é esse lugar? 

— Calma, Ágata. Você verá. — Belisa sorriu. Por um breve instante, todas as preocupações que pesavam meu coração cessaram. Ela tinha esse poder sobre mim.

Mas a calma não durou. Já estávamos atravessando os portões inexistentes. A primeira coisa que vi foi uma enorme casa, dessas que vemos raramente. Uma construção imponente, alta…

— A casa do Governador — murmurei.

— Isso mesmo — Belisa confirmou. — Espere só ver o que encontramos aqui.

Belisa entrelaçou seus dedos finos nos meus. Dava para ver que o grupo dela já havia explorado a área, pois um pequeno caminho se formava em meio ao mato. 

Entramos na antiga casa. Não havia nada lá. No lugar das janelas, havia buracos por onde a luz solar entrava. Belisa já sabia onde pisar e do que desviar. Subimos a escada até o segundo nível. 

— Aqui era a biblioteca, de acordo com os nossos registros. Só que descobrimos mais! — ela sorriu e apontou para um buraco na parede que ficava próxima à escada. — Essa parte havia sido marcado com uma runa. Quando quebramos, descobrimos algo… estranho.

Belisa uniu o polegar ao dedo médio, fazendo um estalo. Uma tímida faísca saiu de suas unhas.

— Você é uma remanescente! — eu gritei, surpresa e animada. — Você tem magia!

Para mim, Belisa já era encantadora e interessante… ser uma remanescente só era o último ingrediente para tornar a poção perfeita. 

— Precisamos de luz lá dentro. 

Com a pequena chama produzida por ela mesma, Belisa nos guiou até o buraco. Ela entrou com certa facilidade, já que era pequena e muito magra. Eu não. Tive de me contorcer até conseguir atravessar aquela parede. Não consegui ver nada, apenas o que estava logo à nossa frente, pois a luz de Belisa era escassa.

Chegando ao centro do que parecia uma sala, o zumbido em meus ouvidos se intensificaram. Senti frio, como se estivesse colhendo ervas no inverno. Vi a figura de Liana, que chorava a minha morte.

Mas eu não estava morta. 

— Pelo menos, não ainda — a voz em minha cabeça ecoou. — Estará em breve.

Olhei para frente, desvencilhando-me daquele breve instante de terror, da certeza da minha morte. Belisa apontava sua chama para o que parecia um túmulo coberto por runas.

— Vem aqui ver isso! — ela me convidou.

Cheguei mais perto. As runas pareciam ter sido escritas com sangue. Eram do mesmo tipo do caderno que eu havia visto.

— Belisa, acho melhor irmos embora — sussurrei. Estava apavorada.

— Não conseguimos abrir o túmulo. Achamos que deve ter algo muito importante aí. E você, Ágata, talvez possa abri-lo. 

Minhas grossas sobrancelhas se juntaram. Eu? Como eu poderia fazer isso?  

— Soube disso no momento que te vi — Belisa respondeu, como se estivesse lendo meus pensamentos. — Na verdade, desde que vi a pedra no seu pescoço. 

Meu colar. Involuntariamente, minha mão segurou a pedra. Não havia nenhum brilho, nenhuma luz. 

— Belisa, você não está fazendo sentido algum.

Ela sorriu — da mesma forma que as mães sorriem quando suas crianças estão confusas, mas de uma maneira adorável. Como eu costumava fazer com Liana. 

Belisa apontou para uma abertura no túmulo. Ela nem precisou aproximar sua luz para que eu visse que a pedra do meu colar tinha a mesma forma. 

— Eu não contei para ninguém, Ágata. Sei que você apareceu aqui por coincidência. Só que eu não acredito em coincidência. E o resto do pessoal… bem, eles não entenderiam. Eu entendo. Vejo em seus olhos. 

Seguindo cada instinto do meu coração, puxei Belisa pela cintura e levei meus lábios até os seus. No fundo, eu sabia que não estava aqui por uma coincidência. Eu ouvira o chamado, o mesmo chamado que me confirmou que eu morreria. Aquele seria meu último respiro. Não veria mais Liana nem minha família. Ao menos, beijaria aquela mulher tão fascinante. 

— Você é uma caixinha de surpresas — ela disse, desvencilhando-se de mim e puxando meu colar. O couro fino se rompeu.

Belisa segurava a pedra em suas mãos. Ela estalou os dedos de novo para produzir uma nova chama. Com a mão esquerda, levou a pedra até a abertura. Não foi nenhuma surpresa quando vimos que o encaixe era perfeito. O túmulo de pedra estralou e Belisa empurrou a tampa com a mão livre. Ela era muito mais forte do que parecia. 

Um cheiro podre e adocicado invadiu nossas narinas. A princípio, foi um só odor muito, muito ruim. Mas logo aquela fumaça mórbida estava fechando nossas gargantas. Belisa e eu começamos a tossir — ela em uma intensidade muito maior do que eu.

— Está chegando a hora — a voz explodiu nos meus ouvidos.

Belisa aproximou sua mão flamejante para perto do seu rosto. Seus olhos pareciam que iam saltar do rosto. Sua boca, que estava há pouco tempo encosta na minha, escorria um líquido escuro. Belisa cuspia e tossia, até que a luz que ela produzia se apagou.

— A hora chegou. Você aceitou o chamado, Ágata.

Meu coração soube. Belisa estava morta, sufocada. O cheiro não estava mais lá. Com medo e completamente paralisada, me arrastei até o seu corpo. O quarto estava mergulhado na escuridão. Senti a pele macia de Belisa e me agarrei a ela. Comecei a me dar conta de que havia ficado entorpecida enquanto ela agonizava. Agora, só podia esperar pela minha própria morte.

A morte não veio. Na verdade, nunca me senti tão viva, como se o meu interior queimasse da melhor forma possível. Era como se a vida de Belisa estivesse se irradiando até mim.

— Agora você sabe, Ágata. Faça a coisa certa — a voz disse com firmeza.

A pedra, que antes adornava o meu pescoço, mas agora era a chave de um túmulo, explodiu em cores, iluminando todo o recinto. Vi runas de sangue irem do chão até o teto. Belisa, que antes era uma linda moça, estava tão seca e pálida quanto uma folha no outono. 

E eu queimava. Meus dedos queimavam. 

Fiz como Belisa, levando um dedo até o outro, provocando um barulho, uma fricção. Ao contrário dela, não fiz nenhuma faísca. Lancei uma bola de fogo até a parede oposta a mim. 

O quarto ardia em chamas enquanto lágrimas caíam do meu rosto. Meus pés começaram a correr para fora daquele lugar, mas minha essência ficara lá dentro. 

— Acredito que fará a coisa certa, Ágata — a voz sussurrou dentro da minha cabeça. — Esta é a magia que você tanto quis. 

Olhei para a casa do Governador, lembrando-me do cheiro podre, do sangue nas paredes, do corpo deformado de Belisa. Aquele era o preço. Córvia estava em ruínas por um motivo. Era o meu dever garantir que permanecesse assim. Pelo bem de Liana e do resto de Esfix. Eu havia aceitado o chamado.

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Filha das Sombras – Parte 2

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Filha das Sombras – Parte 2

Desde o momento que entrei na embarcação para Glóriam, a cidade que dava acesso à Córvia, meu coração gritava de saudades de Liana. Sentia-me terrivelmente arrependida de ter mentido, apesar de não ter nenhuma outra escolha. Enquanto observava as ondas que me levavam até a capital, imaginava como seria voltar para casa, para os braços de Liana e dizer:

— Eu consegui! Eu restaurei a magia de Esfix!

Ela ficaria confusa a princípio, tenho certeza. As pessoas, especialmente as mais novas, não sabiam que, há muitos e muitos anos, havia magia em Esfix. Quando era um pouco mais velha que Liana, conheci uma família viajante. Eles eram descendentes do povo mágico de Córvia. A mulher, quando estalava os dedos, produzia uma pequena luz azul. 

Eles encheram minha cabeça com relatos de guerreiros mágicos que conseguiam atirar pequenas bolas de fogo com as mãos e até mesmo criar objetos com a matéria ao redor. Eu, que estava acostumada a criar as coisas — com plantas e não magia —, fiquei extremamente empolgada com as possibilidades que aquele mundo podia oferecer.

A família viajante foi embora tão rápido quanto chegou, deixando comigo um caderno repleto de runas corvianas, que ninguém mais conseguia ler. O desejo pela mágica permaneceu. Sei que não me lembrarei, em detalhes, da viagem que levará para Córvia, mas tenho certeza que jamais irei esquecer o que vou encontrar lá 

***

Tudo era diferente em Glóriam. Havia um som persistente de metais arranhando. Essa era a principal função da capital: fazer com que toda a província pudesse ter armas. Ignorando as possíveis distrações provocadas pela cidade, como conseguir uma nova adaga, saí do centro de vendas que ficava próximo ao porto e caminhei até o primeiro cocheiro que encontrei. 

Para minha tristeza, ele dissera que não fazia mais viagens à Córvia. Ninguém mais se interessava por lá. Porém, ele havia sido abordado por alguns outros jovens que estavam chegando à Glóriam pelo mesmo motivo que eu. Eles estavam hospedados na Pousada Espadas de Ferro, que ficava próxima ao Rio das Lágrimas. Algo em meu peito dizia que não era coincidência.

— Ultimamente, muitos forasteiros estão interessados naquelas ruínas amaldiçoadas… — o cocheiro disse, por fim. — Boa sorte, senhorita. Você irá precisar.

Por um momento, tive a impressão de ver o meu colar se iluminar em roxo.  

***

Não foi difícil encontrar a pousada e nem o grupo de estudiosos. Eles estavam reunidos no salão. Haviam juntado algumas mesas, enfeitadas por mapas e pergaminhos.

Seguindo a atitude do cocheiro, julguei-os pelas roupas: eram de Ésria, a cidade irmã de Déria. Ésria era o lar daqueles que, séculos atrás, habitavam Córvia. Mas, ao contrário de mim, Ésria não fazia esforços para recuperar a antiga glória do povo mágico, pelo contrário. Pareciam mais interessados em esquecer.

Talvez eu estivesse olhando fixamente para o grupo enquanto me perdia em meus pensamentos de hesitação e insegurança, pois uma jovem, provavelmente da minha idade, veio até mim. Fiquei sem fôlego. Ela era linda. Seus cabelos castanhos caiam como cascata até sua cintura. 

— Posso te ajudar? — A jovem perguntou com uma voz sedosa.

— Claro — olhei para os meus pés, pois sabia que minhas bochechas estavam pegando fogo. — Sou uma pocionista de Déria, mas desejo investigar Córvia. Vocês estão aqui para isso, certo?

— Sim — ela respondeu com uma voz suave e firme.

— Um chamado me trouxe até você… — Limpei a garganta. — Digo, até Glóriam — as palavras certas pareciam fugir da minha boca. — E eu tenho isso — tirei um pequeno livro da minha bolsa e entreguei para ela.

Ela analisou o conteúdo das primeiras páginas. Seus olhos cor de mel se espremeram para decifrar a caligrafia. Quando ela se deu conta do que estava lendo, foram as suas mãos que começaram a tremer. Ela sussurrou:

— Onde você encontrou isso?

— Ganhei de presente, há muitos e muitos anos. Um casal de viajantes passou pela minha vila quando eu era criança. Eles me contaram várias histórias sobre Córvia e deixaram esse caderno comigo. Nunca consegui entender a escrita e nem o seu valor. 

A jovem sorriu e meu coração se derreteu por um momento — mas me lembrei por que estava ali. Ela me puxou pela mão e me guiou até sua mesa. Os outros estudiosos não fizeram perguntas. Acho que o cocheiro tinha razão. Ultimamente, as pessoas estavam chegando até aquele lugar.  

— Meu nome é Belisa — ela disse depois que nos sentamos. — Estudo cartografia na Academia de Sobrânia. Estamos pesquisando sobre um local onde o último mago foi enterrado. Ninguém sabe a localização do seu túmulos, mas sabemos que há algo importante lá. Todos os cadernos de viajantes falam sobre ele.

— Cadernos de viajantes? — perguntei, confusa.

— Sim, como o seu! Os últimos descendentes dos magos de Córvia viajaram por toda Esfix deixando para trás a memória da magia, e cadernos com essas histórias. É por causa desses viajantes que nós nos lembramos — ela sorriu. Parecia otimista.

— Vocês conseguem ler as runas? — Minha fascinação só aumentava. 

— Nem todos nós. Temos uma especialista — ela apontou para uma garota mais velha, que traja roupas simples, mas elegantes. — Bom, tente ler esse enquanto está aqui.

Ela me entregou um caderno de couro enfeitado por símbolos estranhos.  

— Leia e aceite o chamado — ouvi em minha mente assim que meus dedos tocaram as folhas carcomidas pelo tempo. Girei o pescoço, mas não havia ninguém perto de mim. Belisa já havia se levantado para entregar o meu caderno à garota especialista.

Mordi o interior da boca. O suor voltara. Por algum motivo, a voz parecia mais forte e muito assustadora agora que eu estava perto de Córvia. 

— Aceite o chamado, Ágata. Leia — o ruído ecoou pelos meus ouvidos, contra minha vontade. Abri o livro e senti cada pedacinho do meu corpo estranhar aqueles símbolos desenhados em vermelho. Demorou um tempo até eu entender que eles haviam sido desenhados com sangue. 

Filha das Sombras – Parte 1

Sinopse

A magia está acabando na província de Esfix. Porém, segredos antigos podem relevar a solução para o problema. Ágata, uma simples pocionista de Déria, recebeu um misterioso chamado, uma voz em sua mente dizendo de que ela devia ir até Córvia, a cidade mais antiga de Esfix. Em meio aos escombros e ruínas corvianas, Ágata encontrará uma forma de restaurar todo o poder mágico de Esfix. Só que tudo vem com um preço, e talvez esse seja alto demais.

Filha das Sombras – Parte 1

What will it take to make you capitulate?

We appreciate power

We Appreciate Power – Grimes, HANA

O colar em meu peito brilhava em cores diferentes dependendo da luz. Quando o caldeirão de poções de cura fervilhava um musgo líquido, levemente viscoso, meu rosto se iluminava em um estranho tom de verde. 

Sempre gostei de observar como uma pedra tão inútil — achada à beira de um dos rios do bosque — pudesse apresentar tantas variações. 

Além da minha admiração passageira, nunca prestei atenção no que as cores pudessem significar. Algumas das estudiosas de Déria se dedicavam a isso, mas não era esse o meu objeto de investigação. O meu verdadeiro interesse era um segredo para todos, exceto para o meu coração.

Nunca dei muita importância para a pedra, até que, em uma noite escura, sem outra fonte de luz, o colar refletiu um tom de roxo, igual a uma tulipa solitária no campo sombrio. Como a pedra poderia espelhar uma luz que não estava ali? O medo fez com que meus olhos encontrassem dificuldade para se fecharem. Neste dia, eu não consegui dormir.

Quando finalmente tive coragem de fechar os olhos, escutei uma voz distante me chamando. Não sei dizer se a voz era real ou um mero fruto da minha imaginação. Talvez eu estivesse recebendo a visita de algum deus — mas os deuses não existiam mais, já haviam sido esquecidos há séculos. Outra possibilidade, provavelmente a mais correta, era o meu desejo de sair de Déria — e poder estudar o que eu tanto desejava. 

Eu queria, mais do que tudo, explorar os vestígios da civilização que, um dia, abrigou o maior povoado mágico da província. Mesmo sendo uma deriana, filha do povo que estuda a natureza, eu queria ter a mágica do povo de Ázio. Aquela que ainda restava, mesmo sendo tão pouca.

— Venha para Córvia. Seu destino está aqui, Ágata. Você aceita o chamado? — a voz distante perguntou, trazendo-me de volta ao estranho e assustador momento. Suas palavras escorreram pelos meus ouvidos como minha poção verde pegajosa. Era impossível ignorá-la. Logo, logo, deixaria uma marca na superfície. 

— Você aceita o chamado? — a voz insistiu. Parecia impaciente, como se eu fosse mais uma em uma longa fila de corações desejosos. 

Segurei o colar brilhante, observando o roxo tomar conta do meu quarto através das frestas deixadas pelos espaços entre meus dedos.

— Aceito — respondi, mais para mim mesma do que para a voz. Não acreditava que realmente houvesse alguém ali. — Eu aceito o chamado.  

***

— Você não pode ir embora! — Liana implorava, levando a mãozinha até o nariz para secar o catarro que embolava em sua garganta, impedindo que suas palavras saíssem completamente. 

— Eu sei, minha querida. Vou sentir saudades também, mas preciso ir. — Tentei persuadi-la, usando todo o meu charme apaziguador de irmã mais velha.

Liana fungou o nariz e correu para me abraçar. Fechei os olhos, aproveitando todo o calor, todo o amor fraternal que emanava dela. Liana era grande parte da minha vida, talvez a melhor parte dela. Eu a ensinava sobre plantas e poções, levava-a para caçar animais pequenos no bosque de Déria e, mais importante, sempre a fazia rir. 

Ela gostava de caçar com arco e flecha, então, sempre praticávamos juntas. Qualquer um podia perceber que, com apenas sete anos, Liana já havia escolhido sua arma. A minha era uma adaga, simples, porém mortal. Nós, guerreiros derianos, éramos conhecidos por envenenar nossas lâminas. Mas não Liana. Ela apreciava a beleza da concentração, de um tiro limpo e bem calculado. 

Por essa razão, eu esperei que ela reagisse com mais firmeza. Talvez eu apenas estivesse esperando demais de uma criança. Não me culpava tanto por isso. Eu havia sido criada dessa forma: os derianos estudam a botânica, mas nunca criam raízes. Estão dispostos a ir para onde o vento leva — como uma semente perdida em um vendaval. 

Para a tristeza de Liana, eu estava pronta para voar. 

— Volto logo, prometo.

— Promete mesmo? — ela perguntou com a voz fanha.

— Prometo sim.

Essa foi a primeira vez que menti para Liana. Não podia fazer essa promessa. Para ela e para todo o resto da minha família, eu estava indo para Glóriam, a capital da província, para visitar a biblioteca real — e aprimorar meus conhecimentos de pocionista.

Não estava.

Eu aceitara o chamado. Córvia era o meu destino, a cidade de ruínas mágicas. 

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