Filha das Sombras – Parte 2

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Filha das Sombras – Parte 2

Desde o momento que entrei na embarcação para Glóriam, a cidade que dava acesso à Córvia, meu coração gritava de saudades de Liana. Sentia-me terrivelmente arrependida de ter mentido, apesar de não ter nenhuma outra escolha. Enquanto observava as ondas que me levavam até a capital, imaginava como seria voltar para casa, para os braços de Liana e dizer:

— Eu consegui! Eu restaurei a magia de Esfix!

Ela ficaria confusa a princípio, tenho certeza. As pessoas, especialmente as mais novas, não sabiam que, há muitos e muitos anos, havia magia em Esfix. Quando era um pouco mais velha que Liana, conheci uma família viajante. Eles eram descendentes do povo mágico de Córvia. A mulher, quando estalava os dedos, produzia uma pequena luz azul. 

Eles encheram minha cabeça com relatos de guerreiros mágicos que conseguiam atirar pequenas bolas de fogo com as mãos e até mesmo criar objetos com a matéria ao redor. Eu, que estava acostumada a criar as coisas — com plantas e não magia —, fiquei extremamente empolgada com as possibilidades que aquele mundo podia oferecer.

A família viajante foi embora tão rápido quanto chegou, deixando comigo um caderno repleto de runas corvianas, que ninguém mais conseguia ler. O desejo pela mágica permaneceu. Sei que não me lembrarei, em detalhes, da viagem que levará para Córvia, mas tenho certeza que jamais irei esquecer o que vou encontrar lá 

***

Tudo era diferente em Glóriam. Havia um som persistente de metais arranhando. Essa era a principal função da capital: fazer com que toda a província pudesse ter armas. Ignorando as possíveis distrações provocadas pela cidade, como conseguir uma nova adaga, saí do centro de vendas que ficava próximo ao porto e caminhei até o primeiro cocheiro que encontrei. 

Para minha tristeza, ele dissera que não fazia mais viagens à Córvia. Ninguém mais se interessava por lá. Porém, ele havia sido abordado por alguns outros jovens que estavam chegando à Glóriam pelo mesmo motivo que eu. Eles estavam hospedados na Pousada Espadas de Ferro, que ficava próxima ao Rio das Lágrimas. Algo em meu peito dizia que não era coincidência.

— Ultimamente, muitos forasteiros estão interessados naquelas ruínas amaldiçoadas… — o cocheiro disse, por fim. — Boa sorte, senhorita. Você irá precisar.

Por um momento, tive a impressão de ver o meu colar se iluminar em roxo.  

***

Não foi difícil encontrar a pousada e nem o grupo de estudiosos. Eles estavam reunidos no salão. Haviam juntado algumas mesas, enfeitadas por mapas e pergaminhos.

Seguindo a atitude do cocheiro, julguei-os pelas roupas: eram de Ésria, a cidade irmã de Déria. Ésria era o lar daqueles que, séculos atrás, habitavam Córvia. Mas, ao contrário de mim, Ésria não fazia esforços para recuperar a antiga glória do povo mágico, pelo contrário. Pareciam mais interessados em esquecer.

Talvez eu estivesse olhando fixamente para o grupo enquanto me perdia em meus pensamentos de hesitação e insegurança, pois uma jovem, provavelmente da minha idade, veio até mim. Fiquei sem fôlego. Ela era linda. Seus cabelos castanhos caiam como cascata até sua cintura. 

— Posso te ajudar? — A jovem perguntou com uma voz sedosa.

— Claro — olhei para os meus pés, pois sabia que minhas bochechas estavam pegando fogo. — Sou uma pocionista de Déria, mas desejo investigar Córvia. Vocês estão aqui para isso, certo?

— Sim — ela respondeu com uma voz suave e firme.

— Um chamado me trouxe até você… — Limpei a garganta. — Digo, até Glóriam — as palavras certas pareciam fugir da minha boca. — E eu tenho isso — tirei um pequeno livro da minha bolsa e entreguei para ela.

Ela analisou o conteúdo das primeiras páginas. Seus olhos cor de mel se espremeram para decifrar a caligrafia. Quando ela se deu conta do que estava lendo, foram as suas mãos que começaram a tremer. Ela sussurrou:

— Onde você encontrou isso?

— Ganhei de presente, há muitos e muitos anos. Um casal de viajantes passou pela minha vila quando eu era criança. Eles me contaram várias histórias sobre Córvia e deixaram esse caderno comigo. Nunca consegui entender a escrita e nem o seu valor. 

A jovem sorriu e meu coração se derreteu por um momento — mas me lembrei por que estava ali. Ela me puxou pela mão e me guiou até sua mesa. Os outros estudiosos não fizeram perguntas. Acho que o cocheiro tinha razão. Ultimamente, as pessoas estavam chegando até aquele lugar.  

— Meu nome é Belisa — ela disse depois que nos sentamos. — Estudo cartografia na Academia de Sobrânia. Estamos pesquisando sobre um local onde o último mago foi enterrado. Ninguém sabe a localização do seu túmulos, mas sabemos que há algo importante lá. Todos os cadernos de viajantes falam sobre ele.

— Cadernos de viajantes? — perguntei, confusa.

— Sim, como o seu! Os últimos descendentes dos magos de Córvia viajaram por toda Esfix deixando para trás a memória da magia, e cadernos com essas histórias. É por causa desses viajantes que nós nos lembramos — ela sorriu. Parecia otimista.

— Vocês conseguem ler as runas? — Minha fascinação só aumentava. 

— Nem todos nós. Temos uma especialista — ela apontou para uma garota mais velha, que traja roupas simples, mas elegantes. — Bom, tente ler esse enquanto está aqui.

Ela me entregou um caderno de couro enfeitado por símbolos estranhos.  

— Leia e aceite o chamado — ouvi em minha mente assim que meus dedos tocaram as folhas carcomidas pelo tempo. Girei o pescoço, mas não havia ninguém perto de mim. Belisa já havia se levantado para entregar o meu caderno à garota especialista.

Mordi o interior da boca. O suor voltara. Por algum motivo, a voz parecia mais forte e muito assustadora agora que eu estava perto de Córvia. 

— Aceite o chamado, Ágata. Leia — o ruído ecoou pelos meus ouvidos, contra minha vontade. Abri o livro e senti cada pedacinho do meu corpo estranhar aqueles símbolos desenhados em vermelho. Demorou um tempo até eu entender que eles haviam sido desenhados com sangue. 

7 Comments

  1. Ótimo, como sempre. Somos apresentado a um novo mundo, com muita informação. Às vezes, durante o conto, ficamos com aquela vontadezinha de ver o mapa do local, mas eu adoro como os nomes ampliam nossa curiosidade. Há muito o que se imaginar. Ficaram diversas partes para fechar com tudo na terceira e tão aguardada parte, o que me faz pensar como tudo se encaixará ou se este é um conto introdutório de algo bem maior.

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  2. Adorei como sempre. Pensei q o conto ia por caminho, agora está indo em outro. E a última frase, na última mesm, vem ainda aquela informação q me deixou p da vida por ter que esperar mais uma semana rsrsrrs brincadeira!!! Uau qtas questões para serem resolvidas para última parte.

    Curtido por 1 pessoa

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