A Mão que Faz Silêncio – Flash Fiction

A Mão que Faz Silêncio é um obra de flash fiction – história escrita em até 1.000 palavras – e retrata um período cruel de ditadura. Boa leitura!

A Mão que Faz Silêncio

Paloma Bernardino Braga

Mesmo com o barulho dos tiros lá fora, gosto da quietude daqui de dentro. Preciso me afundar e me perder nas fendas da minha memória. É como eu escapo desse pesadelo.

Os tiros continuam e a criança chora. Eu nunca gostei de crianças. Nunquinha. Pensei que isso mudaria quando o filho fosse meu. Talvez isso me inundaria de alegria, daquele amor incondicional que tanto falam. Mas não aconteceu. O choro é insuportável e a criança nem é minha. 

Sempre me perguntei o que é posse. O que significa ser dono de alguma coisa. Eu digo que esse relógio é meu, só que não é. Era de Letícia, mas ela morreu. Não me deixou o relógio, não me deu presente. Entrei em seu barraco e peguei. Não à força. Não há necessidade de se lutar com cadáveres.

Peguei também a criança. O que mais eu poderia fazer? Deixá-la aos prantos, sozinha, nas ruínas do que um dia já foi um lar? 

Houve um tempo que eu queria ser mãe. Até que eu ouvi as palavras sinceras de Henrique:

— Você realmente quer trazer uma criança pra esse mundo? Você que tanto odeia pirralhos? 

Ele tinha razão. Seguro a bebê de Letícia em meus braços, tentando encontrar quietude em seu choro. O barulho lá de fora às vezes se acalma. Quando grita, grita como metal raspando a parede. Faz a pele arrepiar. Faz os ouvidos desejarem explodir.

Deixam a bebê de Letícia lá. Pegaram Letícia. Torturaram Letícia. Mas ela era mais esperta. Tinha um comprimido escondido no fundo da boca, como todos nós temos. Ela o mastigou, deixando sua filha para trás. Não sobrevivera para vê-la crescer em meio a esse inferno. Letícia dissera uma vez:

— Quando você escolhe a resistência, Carla, você torce. Torce para não te pegarem. Porque se te pegarem, você morre. Não existe outra opção. Você morre. 

Letícia não era uma maníaca por controle como eu sou. Se eu estivesse em seu lugar, teria vivido até o possível para descobrir o que fariam comigo. Se torturariam minha criança. Talvez Letícia não fosse forte o bastante para saber a verdade. Nem sei se eu seria.

Às vezes eu gostaria que me achassem, que descobrissem meu disfarce. Seria mais fácil acabar com tudo. No fundo, não sei por que resisto. Já não sinto esperança, mesmo que tenha um par de mãos muito pequena segurando o meu dedo. Dizem que as crianças são o futuro. Então, por que hoje temos esse tipo de adulto? Eles já foram crianças. Eles eram o futuro. Mas escolheram esse presente. Escolheram a ditadura.  

Eles não sabem que sou atriz. Não formada, nem amadora. Sou uma mentirosa muito boa. Acham que estou do lado deles. E é por isso que eu sou a resistência. Porque vi meus amigos morrerem. Meus pais foram torturados na minha frente. Porque vi um pau de vassoura ser enfiado em meu marido enquanto ele gritava. Porque fui trancada em um quarto com cobras. E sobrevivi. 

Porque eu sou uma maníaca por controle.

Acaricio o rosto da bebê. Ela não tem nome. Igual a menina morta em Recife. Morreu sem nome. Ninguém foi identificado. Igual aos corpos que jazem na rua de cima da minha casa. Um açougue a céu aberto. Nenhum corpo é de ninguém. É só carne.

As pancadas contra o metal do portão voltam. Estão mais perto do que nunca. Eles devem estar tentando derrubar o portão da vizinha. Ela vai morrer. Ela deve saber. Eu sei.

A bebê começa a chorar. Isso me faz lembrar de quando eu parava em pé em uma sala com quarenta alunos para ensinar matemática. Eu nunca gostei de crianças.

Especialmente do barulho que elas fazem. Mas quarenta crianças inquietas e rebeldes fazem menos barulho do que dois homens derrubando um portão. 

Eu odeio homens.

A bebê chora como música alta. Parece que quer competir com os homens lá fora. O metal arranha, arranha e arranha. O choro se torna a plenos pulmões. A vizinha começa a gritar. Ela implora. Eu só fecho os olhos e rezo: espero que não coloquem um rato na vagina dela. 

Mas provavelmente vão.

O tempo passa.

Quase duas horas.

Como no roteiro do mesmo filme de terror que se repete, eles batem no meu portão. Eu deixo a criança chorar. Eu também choraria se pudesse.

Abro o portão com um grande sorriso, e abro as pernas porque é o que eles querem. É assim que me deixam viva. 

— Tem comida na casa da velha — um deles me diz.

Eu vou até lá enquanto vazo por entre as penas. Pego a comida e tento não seguir o rastro de sangue.

Não sei porque insisto na minha própria existência. Não há nem mais jornal na televisão. Não sei nem se há uma resistência. 

Volto para casa. Sou bem-recebida por todo o silêncio quentinho. A bebê parece mais vermelha do que o normal. Acho que estou com febre. Acho que estou ouvindo a vizinha gritar, mas ela está morta. 

Não está morta. Ela bate no meu portão e grita. Grita a plenos pulmões.

A bebê grita. Minha mão vai até sua boca, tampando-a. Preciso de silêncio. Mesmo que breve. 

Gritos, gritos, gritos abafados. Minha cabeça gira enquanto vejo o líquido que mancha minhas pernas. Talvez a verdadeira resistência deva ser outra coisa. Isso não é. Libero a boca.

A vizinha se cala. Se não estava morta antes, agora está. Mais toques no meu portão. Barulho de chave raspando metal. A bebê chora e eu coloco minha mão sobre sua boca novamente.

Ela fica vermelha.

Eu choro também.

— Não adianta fazer silêncio, eles sabem que estamos aqui, querida.

Afago seu cabelo. Deixo minha mão permanecer. Tento me justificar:

— Culpe os cidadãos. Eles que ficaram em silêncio por tempo demais.

Beijo sua testa. Eles tentam derrubar o portão.

— Culpe o silêncio, querida. 

Pego duas facas na cozinha. Raspo suas lâminas uma contra a outra. Murmuro:

— A resistência é barulho, querida. 

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