Conto – Cérebro Condenado – Parte 3

Este conto faz parte da terceira edição do projeto “Em um mês, um conto”.

Parte III

Mafaltta

Oswald me explica tudo. Como minha mãe se rebelou contra as experiências do meu pai, se apaixonou por um outro homem e, junto a ele, fundou a Organização — tudo isso enquanto eu dormia em um sono congelado. Talvez preferisse ficar assim.

Todos esperam que eu me torne a linha de frente da Organização. Eles não entendem que essa luta não pertence a mim. Não sou contra a ciência. Pelo contrário, sou muito a favor dela. O que eu desprezo são os extremistas, como meu pai. 

Não vou passar de um extremo para outro.

Me recuso. 

***

Walter

— Não encontramos nenhum indício que ela esteve ou está na sede da Organização. — Dênis diz. 

Ele parece mais velho do que verdadeiramente é, todos nós parecemos. Toda essa luta contra os extremistas da Organização é ridícula. Ela tem tomado todo o meu tempo e paciência. Tudo isso para não chegarmos a lugar nenhum.

— Ela está lá — rebato. — Tem de estar. A Mafaltta, mais do que ninguém, tem motivos para estar ao lado da Organização. Ela foi vítima da ciência cega e desenfreada. Passou anos e anos com o pai cutucando o seu cérebro, tentando fazer com que ela superasse suas deficiências cognitivas. Deu no que deu. 

— Às vezes eu acho que você memorizou os diários dele.

— Memorizei mesmo. O cara era um gênio — admito. — Bom, não há nada que possamos fazer. Devemos esperar um ataque, mais cedo ou mais tarde. 

— Não é melhor atacarmos primeiro?

— Não, Dênis. Vamos deixá-los mover as peças primeiro. Você precisa se lembrar que a Organização não tem os mesmos recursos que nós. Eles não podem usar o que querem destruir: nossa ciência. 

***

Mafaltta

Oswald é filho do irmão do segundo marido da minha mãe. Não somos parentes de sangue, mas ele me trata como tal. Estou ficando de saco cheio. Ele é um hipócrita. 

A cada dia que passo aqui, mais as expectativas crescem. A Organização me endeusa e espera que eu também os endeuse. Estou quase chegando à certeza que suas motivações são estúpidas. Não se pode frear a ciência — da mesma forma que não é possível acabar com as religiões. São forças acima de nós.

Mas também não estou a favor do Governo. O Governo não me protegeu.

Pelo contrário.

O Governo financiou todas as pesquisas do meu pai. Eles sabiam o que estava acontecendo. E optaram por permitir. 

Acho que a saída está clara para mim. Nem Organização e nem Governo. 

Jamais pertencerei a polaridades apaixonadas demais por si mesmas. 

Pertenço a mim mesma. 

***

Walter

Dênis e eu saímos mais cedo para tomar uma cerveja. Peço ao motorista para nos deixar no bar do Souza. Gosto de lá. É um bar quieto e vazio — perfeito para dois homens em seus trinta e poucos anos, cansados demais para qualquer juventude. 

Chegamos no bar e nos sentamos na mesa de sempre. O sr. Souza traz duas garrafas de cerveja gelada e Dênis começa a se perder nos próprios pensamentos. Ele não percebe a entrada de uma mulher estranha. Mas eu sim.

Estranhamente familiar. Com cortes em suas têmporas e sobrancelhas. 

Merda.

Minha mão vai até o coldre, mas estou trêmulo demais para agir. Apavorado seria a palavra certa para descrever o que sinto.

— Eu não faria isso se fosse você — ela sussurra no meu ouvido enquanto encosta o cano de sua arma contra minha nuca. 

Toda a cena acontece muito rápido. Dênis olha para mim e perde toda a cor do rosto.

Parece que viu um fantasma.

O fantasma sobre o qual lemos em tantos diários.

Mafaltta senta-se junto a nós e dá um sorriso para Dênis. Ele parece que vai vomitar a qualquer momento. Meu estômago também revira.

— Não se preocupem, não vou matar vocês. Venho com um aviso. Não estou com a Organização e muito menos com vocês. Se querem gastar recursos para essa briga boba, fiquem à vontade. 

Ela tira o capuz e guarda a arma. Consigo ver como sua cabeça é entrelaçada por cicatrizes. Quase como uma coroa de espinhos. 

— Vou sair do Brasil e não ousem me procurar — ela volta a dizer. Seu tom é frio e muito ameaçador. — Senão eu mato vocês. E suas famílias. Só quero deixar claro que não estou tomando nenhum partido. Quero que vocês se explodam. 

Mafaltta tira um pendrive do bolso e o coloca em cima da mesa. Ela dá um tapinha no meu ombro e vai embora tão rápido quanto chegou.

— Puta que pariu. — Dênis murmura.

E eu percebo que acabei de deixar passar a oportunidade da minha vida: capturar Mafaltta. 

Mas no fundo sei que eu teria falhado — e por isso sequer tentei. 

Meus dedos vão até o pendrive. 

Preciso ver o que tem dentro. 

Antes, corro até o banheiro. Deixei minhas calças molhadas de tanto pavor.

***

Mafaltta

O segredo para uma boa intimidação é deixar que seu oponente saiba tudo o que você tem contra ele.

Agora o Governo sabe. 

Entro no avião com tranquilidade, na expectativa de um recomeço — que agora é possível. 

Finalmente consegui. Encontrei a solução para meu maior medo: ser capturada e aberta para que meu cérebro seja analisado em seus mínimos detalhes.

Em uma mini-incisão, implantei um pequeno detonador na minha cabeça. Com o código certo, eu posso me explodir — como uma bomba-relógio.

Solução simples. Fácil.

A possibilidade de deixar meu crânio em pedaços é a única chance de liberdade que tenho, mesmo que isso signifique perder o maior avanço da ciência brasileira.

Não me importo.

Eu jamais deixarei o mundo sofrer as torturas que eu sofri.

Não deixarei a ciência tirar o que há de mais belo na natureza: as diferenças causadas pelas imperfeições. 

Sinto falta de ser imperfeita — era isso que me fazia ser eu mesma.

Não posso desfazer o que o meu pai fez, mas posso impedir que isso aconteça com outras pessoas.

Passo a mão nos pontos novinhos em folha que decoram minha nuca. E me certifico que o relógio em meu pulso está funcionando corretamente. 

Agora meu cérebro está verdadeiramente condenado. 

Ainda bem. 

Gostou do texto? Deixe um comentário! ❤

8 Comments

  1. “Jamais pertencerei a polaridades apaixonadas demais por si mesmas.” Alegoria política? Dá pano pra muita manga pensar nisso. O que fica nas entrelinhas, as lacunas da história, levam a interpretações várias de como esses polos opostos se formaram a partir do atual panorama da política brasileira e como as discussões sobre a ciência, atualmente no cerne desses embates ideológicos, deflagaram a situação em que a protagonista se encontra. Parabéns pelo excelente conto.

    Curtir

Deixe uma resposta para Bella Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s