Conto – Cérebro Condenado – Parte 2

Este conto faz parte da terceira edição do projeto “Em um mês, um conto”.

Parte II

Mafaltta

Digito no painel os mesmos números que vi um segurança digitar. As pessoas deveriam tomar mais cuidado… Com roupas pretas e o cabelo preso no alto, eu me misturo fácil e até pareço como parte da Organização. Eu os admiro, mas preciso admitir que a segurança deles é uma droga. 

Devo dar-lhes um desconto.

Ninguém aqui tem um cérebro como o meu. 

***

Walter

— Não temos nada, é isso! — Eu grito no ouvido de Dênis. 

— Não, chefe. Não temos nada.

Fecho meus dedos em um punho que vai direto contra a mesa. O impacto dói mais em mim do que no tampo de ferro. Não importa. Preciso da dor para me lembrar como fracassamos.

— Como ela saiu de lá, porra?! — Pergunto.

— A Daniela acha que o pai ou a mãe devem ter instalado um mecanismo para ela ser acordada em um determinado momento. Ou alguém achou ela antes de nós.

— A Organização. Merda.  

***

Mafaltta

Caminhar pelos labirintos de corredores da sede da Organização não é difícil quando se tem memorizado toda a planta do prédio. Meus pés me levam com pressa até os aposentos de Oswald. Pelo que consegui ver em seu celular, que invadi com muita facilidade, ele já está acordado.

Chego na porta do quarto 230 e dou três toques com os nós dos dedos. Ele abre a porta e seus olhos parecem que vão soltar das órbitas. Nos encaramos em silêncio por alguns momentos.

— Você é a cara da sua mãe — sua voz sai trêmula. Muito trêmula.

— Vamos entrar.

Eu me empurro contra ele e fecho a porta. A última coisa que eu quero é que outras pessoas saibam que eu estou aqui. 

— Eu tinha dúvidas se você iria saber quem eu sou — admito. 

— Eu também… 

Oswald, branco como um papel, se senta em uma postura muito ereta. Aproveito a oportunidade para observar suas feições — que são agradáveis, mas inesperadas. 

— Bom, Oswald, eu tenho perguntas e sei que você também as suas. Quer começar? 

Ele balança a cabeça em afirmação e me indica, com um gesto, uma cadeira para eu me sentar. O seu quarto me lembra uma kitnet antiga, só que maior e muito mais tecnológica. Não sei quando as pessoas decidiram que paredes de inox são bonitas, estão totalmente erradas. Quem quer morar dentro da porra de um microondas? 

— Nós estamos tentando te encontrar há anos, Mafaltta. O Governo também. Principalmente o governo — há medo em sua voz. —  Como você saiu de lá?

— Minha mãe criou um sistema para me soltar em 20 anos. Não sei por que tanto tempo e nunca tive a chance de perguntar. Quando eu acordei, recolhi todos os registros e equipamentos do meu pai e, desde então, tenho vivido nas sombras. 

— E por que você está aqui agora? 

— Porque o Governo finalmente encontrou o lugar onde eu estava. 

— E por que decidiu me encontrar?

— Estava nas instruções da minha mãe.

Ele não responde. Quase consigo ver as engrenagens girando em seu cérebro. A forma como ele hesita e pondera me faz pensar se ele é confiável ou não. 

— Eu vim encontrar você, Oswald, não a Organização. Espero que isso fique muito, muito claro — dou um sorriso e tiro um frasco de pílulas mortais do bolso para que ele veja.

Oswald engole em seco e limpa as gotas de suor que se acumulam em sua testa enrugada. Eu adoro como homens mais velhos e mais fortes do que eu ficam apavorados perto de mim.

— Está claro. Mas Mafallta… Sua mãe queria você aqui. Na Organização.

***

Walter

— Pessoal, eu pedi ao Dênis que reunisse vocês aqui porque estamos, a partir de agora, em perigo. Um grande perigo — faço uma pausa dramática e limpo a garganta. —  Como vocês sabem, não encontramos a Mafaltta e nem os documentos de seu pai. Precisamos ser lógicos. O pai dele era a favor do Governo, mas a mãe era uma traidora. Foi ela quem praticamente fundou a Organização. 

— Então, se a Mafaltta não está conosco… Ela está do lado da mãe. — Daniela completa. 

— E por que não estamos considerando que ela está morta? — Um detetive qualquer pergunta.  

— Ela tem o cérebro mais desenvolvido do mundo, camarada. Por isso. Pode ter certeza que a filha da puta está viva. E isso faz de nós… Um alvo. 

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13 Comments

  1. Excelente! Gosto muito da Mafaltta e de como ela é poderosa… Estou muito ansiosa para ler o final, pois tenho certeza que será incrível. “Eu adoro como homens mais velhos e mais fortes do que eu ficam apavorados perto de mim”, essa frase me arrepiou. Virei mais fã ainda!

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  2. Excelente trama! A narrativa é muito concisa. Em cada linha são disparadas muitas informações, que injetam altas doses de hipóteses no nosso imaginário. Esse revezamento de narradores tá muito show! Curioso para ver no que vai dar esse conflito: Governo vs Organização.

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  3. A concisão da linguagem e agilidade na ação me remetem a um Rubem Fonseca ou um Edyr Augusto. Agilidade de narrativa policial ao estilo brasileiro, com o acréscimo do sci-fi. Vc já leu o conto “O exterminador” do Rubem Fonseca? É também um excelente exemplo desse viés literário. A trama está magnética, ansioso por esse desfecho.

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  4. A concisão da linguagem e agilidade na ação me remetem a um Rubem Fonseca ou um Edyr Augusto. Agilidade de narrativa policial ao estilo brasileiro, com o acréscimo do sci-fi. Vc já leu o conto “O exterminador” do Rubem Fonseca? É também um excelente exemplo desse viés literário. A trama está magnética, ansioso por esse desfecho.

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