Conto – Cérebro Condenado – Parte 1

Este conto faz parte da terceira edição do projeto “Em um mês, um conto”.

Sinopse

Mafaltta Battisti é filha de um cientista considerado visionário e extremo. Aos vinte anos de idade, foi submetida a uma cirurgia que mudou completamente a sua vida — e a tecnologia do mundo inteiro. Com o cérebro moldado quase à perfeição, Mafaltta se escondeu do mundo por muitos anos, até que o temido Governo a descobriu. Agora, ela deve se esconder e proteger o segredo que guarda em seu próprio crânio. E deve fazer isso antes que coloque a população mundial em risco.

Parte I

Mafaltta

Alguns dias são normais até que deixam de ser. Tudo estava indo bem: peguei um trânsito absurdo, cheguei na academia quase uma hora depois do planejado, completei minha ficha em menos de uma hora e minha ida ao trabalho foi interrompida por uma notificação no relógio inteligente.

O alarme havia disparado.

O local secreto não era mais secreto.

O governo, agora, sabe o meu segredo. 

E eu preciso fugir. 

***

Walter

— Mafaltta! — Dênis gritou. — Que porra de nome é esse?!

— Nome de filha de cientista egocêntrico — eu cuspo no chão. Detesto os homens loucos da ciência. Desprezo-os com todo o amargor que borbulha no meu estômago perfurado por café em excesso. 

— Nome ridículo — Dênis concorda comigo. — Espero que a gente encontre…

O cérebro. É isso que estamos tentando encontrar há mais de cinco anos. Completamente sem sucesso. Até hoje. Hoje é o dia em que a ciência racional avança. 

Lembro-me perfeitamente de assistir, quando criança, a uma simulação virtual de descobertas de tumbas no Egito. Senti um frio na espinha delicioso, ávido por ver aquela porta abrir e revelar o corpo da múmia. 

Não vamos ver múmia nenhuma. Só o corpo congelado de uma jovem de 25 anos, mutilada pelo próprio pai. Mutilada não, melhorada. Muito melhorada. 

E é ela quem possui a chave para o meu maior avanço tecnológico: o cérebro perfeito. 

***

Mafaltta

Chego no antigo prédio de nossa família, que hoje é um amontoado de ruínas e erva daninha. Pelas marcas no chão, vejo que os invasores já foram embora. Espero que tenham sido espertos o suficiente para deixarem alguém para trás. Mas não.

Eles não consideraram que eu sou mais esperta. E que, há muito tempo, instalei câmeras de segurança e alarmes por todo local. Que removi todos os arquivos, tudo. Que deixei para trás um corpo que não era o meu.

Eles vão descobrir. Assim que abrirem a cabeça dela. 

Enquanto isso, tenho tempo o suficiente para bolar um plano. Preciso me esconder se quero garantir que nunca descubram quem eu sou. Mafaltta é meu nome de batismo, mas não é assim que me chamam. Escolhi Cristina, pois lembra Cristo. Um nome comum, sem graça. Um nome que protege a minha realidade. Espero que eu me mantenha assim. Caso contrário, o mundo está fodido. 

Ninguém, jamais, pode descobrir quem eu sou ou o que eu guardo dentro do crânio.

Mas, para que esse segredo seja mantido, preciso dizer a verdade à pessoa certa.

Sei justamente onde encontrá-la.

Subo na minha moto automática e rumo até o covil da Organização.  

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31 Comments

  1. Achei incrível como a história está se costurando entre esses dois narradores (e entre tempos distintos?), do Walter e da Mafaltta, deixando um monte de pistas e de lacunas pra jogar com nossa expectativa! Ansioso pela parte 2!! ❤

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  2. Fico muito impressionada com a maneira com que você consegue passar tanta coisa com apenas uma parte do conto, eu me senti envolvida e muito curiosa para saber mais sobre a Mafaltta e o seu segredo. Além disso, amo essa maneira de dar luz à vários personagens, podemos ver todos os lados da história.

    Curtido por 2 pessoas

  3. Bem escrito, leitura fluida, a gente embarca rapidinho. Crueldade ficar esperando até quinta que vem…. Rs
    Fiquei impactado com a descrição da filha mutilada e congelada.

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  4. Tem um Covil? Já ganhou minha atenção. Narrativa ótima com essa mudança de câmera entre quem está narrando.
    Aguardo a 2a parte para saber quem é que precisa saber a verdade e o que é o segredo que Cristina carrega em sua mente.

    Curtido por 2 pessoas

  5. Narrativa ágil, sem rodeios para chegar ao ponto nevrálgico. Já deu o ritmo da ação que, parece, será vertiginosa, e com aquele toque de noir à Blade Runner. Já ansioso.

    Curtido por 2 pessoas

  6. Narrativa ágil, sem rodeios para chegar ao ponto nevrálgico. Já deu o ritmo da ação que, parece, será vertiginosa, e com aquele toque de noir à Blade Runner. Já ansioso.

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  7. Narrativa instigante! As pistas nos dão a impressão de que muita coisa aconteceu em curto espaço de tempo. Estou curioso para descobrir o segredo do cérebro condenado.

    Curtido por 1 pessoa

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