Conto – Corpo em Águas Verdes – Parte 3

Esta é a terceira e última parte do conto. Caso não tenha lido as partes anteriores, clique aqui. Boa leitura!

Parte 3 – A Culpa 

Mordo as unhas enquanto espero no saguão da delegacia de homicídios. Não faço a mínima ideia por que estou aqui. Encontrar um corpo agora é um crime? Sabendo o que sei sobre investigação policial, estar aqui significa ser suspeita. Não há outro motivo. Minha hipótese se confirma quando o investigador aparece. Não me lembro do seu nome, mas me recordo que ele não soube pronunciar o meu. 

***

A escritora parece nervosa. Ótimo. Sinal de quem tem algo a esconder. Ela parece apagada por trás das roupas pretas e do óculos de tartaruga gigante que cobre o seu rosto. É melhor que cubra mesmo, Giuliana com G. Qualquer que seja a verdade aí, eu vou descobrir. 

***

— Quero que me explique, Juliana, por que você está se envolvendo com a família da vítima — disse o investigador, errando novamente o meu nome.

— Giuliana com G. Você está dizendo errado. Bom, sr. Marcelo, como um bom investigador, você deve ter feito o dever de casa, certo? 

— Sem gracinhas.

— Não é nenhuma gracinha. Enfim, continuando. Uma simples busca no Google vai revelar que eu escrevo mistério. True crime. Romance policial. É o que eu faço. Então, Marcelo, não deveria ser uma surpresa tão grande uma escritora se interessar pelo fato de que realmente encontrou um corpo na Lagoa!

— Concordo. Tudo bem se interessar. Todo mundo se interessa, por isso os jornais vendem. Mas uma coisa é se interessar, Juliana. Outra é você flertar com o noivo da vítima. 

— Eu só estava fazendo o que você não podia, sr. Marcelo. 

— Srta. Juliana, você deve saber que homens podem flertar com outros homens, não estamos no século XIX.

— Você deve estar desesperado para me considerar suspeita — rebato. A melhor defesa é sempre um rápido ataque. 

— Você não sabe de nada, escritora. Você não é nenhuma Miss Marple — ele me desafia.

— Você chegou a checar se a Bianca pegou um Uber ou táxi antes de morrer?

 ***

Não controlo a raiva. Impossível. Deixo o meu punho se chocar contra a mesa de madeira e imediatamente me arrependo. Miriam olha para mim, impassível.

— Cara, homens são estúpidos demais. Você acha que socar a porra da mesa vai adiantar?

— Vai.

— Burro pra cacete — ela sorri. — Por que você está incomodado. A escritora maluca deu uma boa ajuda. Faz todo sentido. Poderia ter sido um Uber ou táxi. A gente sabe que o namorado não foi.  

— A gente não sabe, Miriam.

— Sabe. Ele tem álibi.

— Por que um Uber mataria ela? — Pergunto, ainda querendo esganar Giuliana com G. Espertinha maldita. 

— Estupro. Me parece motivo suficiente. Mulheres morrem por isso o tempo todo. Não é seguro ser mulher, você sabe. Porra de sociedade — Miriam bufa. 

— Bom, vamos esperar. Em breve saberemos se ela pegou um Uber ou algo assim. 

*** 

Mando mensagem para Pedro, o ex-noivo de Bianca. O filho da puta me dedurou. Apesar de acreditar que pode ter sido outra pessoa, é estranho ele ter jogado o meu nome assim… De qualquer forma, mando mensagem. Vou me fingir de boba. Quero descobrir por que ele resolveu tentar me culpar. A melhor defesa é um rápido ataque. Talvez Pedro saiba disso tanto quanto eu. 

***

Nada de Uber. Nadica de nada. Nada nos registros telefônicos. Nada nas câmeras. Para onde Bianca foi? Quais foram seus últimos passos? Caminho em círculos pela sala dos investigadores e penso no noivo. Por que ele falaria de Giuliana assim? Por que entregá-la? E por que eu aceitei de bom grado que ela poderia ser culpada? Filho da puta.      

***

Espero por Paulo num restaurante esquisito. O idiota achou que seria legal jantarmos para falar de Bianca. Ele sugeriu um restaurante perto da minha casa, mas não muito reconhecido — um lugar que nunca fui. Aceitei. Claro que quero falar de Bianca. Quero saber o que aconteceu com ela. Quero saber por que ele me entregou. Paulo finalmente chega, mas há algo de estranho em suas maneiras. Olhos para o meu arredor. Nenhuma câmera de segurança. Eu imediatamente percebo o erro que cometi. 

***

O barulho da sirene não me incomoda. Sempre gostei do senso de urgência e como o som se funde com as batidas rápidas do coração. O que me incomoda é Giuliana não atender o celular. Escritora maldita achando que é investigadora! Continuo ligando, mas só dá caixa postal. Preciso dizer a ela que matei a charada: as filmagens do prédio são antigas. Filmagens antigas em loop. Tento ligar mais uma vez. Caixa postal. Desisto e deixo o celular no colo. Minutos depois, ele vibra.

“doi eke”

Mensagem de texto de Giuliana. Sei que é dela porque salvei o número. Fico confuso e mostro para a Miriam. Ela arregala os olhos. 

— Ela escreveu “foi ele”. Provavelmente digitou sem olhar para o celular. Eu faço isso o tempo todo. Você sabe o que isso significa, não sabe? Marcos, muda o GPS para a Lagoa da Pampulha. Marco zero.

***

Eu sei que estou morta. Não morri ainda, mas não vou sair viva desse porta-malas. Não sei para onde vou, mas não volto. As lágrimas descem com força, pois elas sabem que essa é a última vez. Sempre pensei que morreria com lágrimas doces — com a satisfação de uma vida bem-vivida. Jamais pensei que a água salgada seria de medo. Nunca pensei que eu morreria tendo a consciência de já estar morta. Eu sei que estou morta. Não morri ainda, mas não vou sair viva desse porta-malas. 

***

Babaca sem criatividade. É tudo o que consigo pensar ao ver que ele escolheu o mesmo lugar para jogar o corpo de Giuliana: perto do marco zero da Lagoa da Pampulha. Mas babacas sempre erram, de alguma forma. Se acham espertos, mas não são. Babacas são pegos por acharem que nunca serão. 

Giuliana cospe a água da Lagoa enquanto é atendida pelo SAMU. Apesar da radioatividade da Lagoa, ela vai sobreviver. Ou virar um jacaré. Miriam vomita perto de uma árvore. Eu observo as algemas nos pulsos de Paulo. Entendo a morte de Bianca, mas não a tentativa em Giuliana. Talvez ele goste de matar, só isso. Olho para ela. Ela também gosta de matar. Mata com suas palavras escritas em páginas. Uma assassina inocente quase afogada nas águas verdes da Pampulha. Quem diria. 

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