Contos

Conto – Corpo em Águas Verdes – Parte 2

Parte 2 – A Obsessão

Já memorizei todas as fotos de Bianca. Apesar de nunca ter visto ela (viva), suas feições são familiares como as de meus amigos. E falando em amigos… Já temos mais de cinco em comum. A mãe, o noivo, a melhor amiga. Aqueles que mais postam em seu mural. Bianca era querida, dessas pessoas de muitos conhecidos. Todos lamentam sua morte e rememoram os melhores momentos. Mas ninguém parece se perguntar: por que Bianca está morta? 

***

Porra de vizinhos. Filhos da puta. Ou estão encobrindo o noivo da morta ou são burros. Acho que as pessoas não têm ideia de quando são cúmplices de pecado — ou de um crime. Tentei explicar, Deus viu que tentei. Mas não. O filho da puta estava no apartamento. “Ouvimos barulhos”. 

A mulher aparece morta dias depois. Vista pela última vez brigando com o namorado ciumento. As câmeras estão do lado dele. Os vizinhos também. Merda! Seguro meu punho que ia contra a parede. A raiva é a pior inimiga de um investigador. 

***

Um bom escritor sabe fazer networking. Uma boa achadora de corpos deve aprender a fazer networking. Não consigo me desligar do Whatsapp. O namorado de Bianca é simplesmente gato demais. Ele dá respostas inteligentes, parece saber mais do que aparenta. É claro que eu desconfio dele. Todo mundo sabe que sempre é o cônjuge. Mas ele é gato demais. Não sei. É difícil pensar em um vilão assim. Ted Bundy provou o contrário… 

A verdade é que não vejo motivos aparentes para ele ter a matado. Não deve ser ciúmes. Claramente ele era mais bonito do que ela. Há motivo. Sempre há. Ninguém mata sem motivo. Preciso descobrir qual é. Preciso saber se foi ele. E se não for… Bem, vamos passar de networking para flerte. Quem diria que o Facebook de uma morta seria melhor do que o Tinder.

***

A vida da vítima é tão normal que chega a ser chata. Nada parece diferente ou suspeito — tirando o noivo. Os pais dela gostam dele. Não suspeitam dele. Não poderia ser ele. Mas eles não sabem o que um investigador sabe: por baixo das aparências há camadas e camadas de segredos. E hipocrisia. 

— A autópsia tá pronta — Miriam aparece no meu cubículo, jogando as folhas na mesa. — Morreu afogada. Imagina, cara, engasgar com aquela água nojenta da Pampulha. 

— Marcas de abuso? — Pergunto enquanto faço uma leitura dinâmica.

— Sim. Marcas de luta. Parece que foi raptada, mantida em cativeiro, abusada e…

— Afogada na porra da lagoa da Pampulha.

— É… 

***

Eu queria ser a Bianca. Tirando a parte de estar morta, é claro. Queria ter a sua beleza, seus amigos, suas posses. Não consigo parar de ler sobre ela. E quando paro, é para escrever. Escrever sobre ela. Penso tanto em Bianca que esqueço de mim. Esqueço que ela deveria ser só um corpo encontrado. Mas não. Há uma espécie de força gravitacional me puxando até ela. E é por isso que eu volto. Vou até a Lagoa da Pampulha. Até o local do crime. Todos os dias. Sento na grama enquanto vejo as fotos dela. Alguns minutos depois, Paulo, o noivo, me manda uma mensagem. Sorrio. 

***

Encontro Miriam no bar do seu Zé. Ela me espera enquanto devora uma porção de fritas. Típico. Depois vai reclamar que está gorda. Claro que está gorda, você está comendo batata frita às 10 da manhã! 

— Oi — cumprimento e me sento.

— Cara, esse caso tá me tirando do sério.

— Calma. Pode ser que eu tenha um novo suspeito.

Miriam se ajeita na cadeira e vejo seus olhos brilharem tanto quanto as batatas gordurosas. 

— Quem? — Ela pergunta.

— O chefe dela.

— Uai…

— Uma das colegas de trabalho acabou dizendo que o chefe meio que tinha segundas intenções. O cara queria foder ela.

— Típico.

— Mas ela tinha namorado.

— Típico.

— Assassinato por vingança.

— Típico de novo — ela revira os olhos e coloca mais batatas na boca do que consegue mastigar.  

***

Encaro a página do Word. Minhas anotações gritam. O histórico do Google está recheado de Bianca. Meu livro de gêneros literários está aberto em conto policial. Se não posso ser Bianca na vida real, que eu seja na ficção. Quero ser o corpo em águas verdes. Quero ter o ponto de vista da vítima nessa história. 

— Você é estranha pra caralho — digo para mim mesma.

— Eu sei. Bons escritores são — respondo, tentando justificar toda a escuridão que há dentro de mim.

***

Recebo uma ligação. Visita. Caso Bianca. Está subindo. É a porra do namorado. Espero que ele venha confessar, pois não vejo outro motivo para ele estar aqui. Encontro ele na sala de interrogação. 

— Oi, doutor Marcelo — ele me cumprimenta com seus dentes perfeitamente alinhados e brancos. Cara babaca em camisa pólo e relógio gigante. Meu Deus. Quero socar a cara dele. 

— Marcelo só. Doutor é quem tem doutorado.

— Hehe — até sua risada soa falsa. Ele continua. — Então, Marcelo, você me disse para falar com você caso algo diferente acontecesse ou eu me lembrasse de alguma coisa…

Ou você decidir confessar. 

— Isso. Me conta. Sou todo ouvidos. 

— Então… Tem algo estranho acontecendo. 

— O quê?

— Sabe a moça que encontrou… A Bianca? Então, ela… Acho que ela está flertando comigo. E entrando em contato com outros amigos e familiares da Bianca. Eu não entendo muito dessas coisas, então queria saber se… Se esse é um comportamento normal para quem… Encontra o corpo?   

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11 comentários em “Conto – Corpo em Águas Verdes – Parte 2”

  1. Impecável como sempre! Adorei o rumo que as coisas estão tomando. É realmente algo a se pensar, como uma obsessão pode se formar assim, a ponto de uma pessoa querer ser outra… Mesmo que a outra já esteja até mesmo morta. Muita coisa interessante na história, além do mistério principal. Aguardando a terceira parte!

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  2. Muito bom!
    Ainda estou perdidinho, sem saber para que lado a narrativa vai nos levar. Muitos suspeitos e uma escritora que, se não era, está virando.
    O jeito como tudo vai, às vezes lentamente, às vezes abrutamente, evoluindo é muito interessante.
    Mal posso esperar para dia 28.

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  3. Essa Bianca, fazendo “bianquices”. Adorei a parte que diz que todo escritor é estranho. De fato, ser morada de tantas histórias causam essa impressão. Mas na verdade, é como uma alquimia. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Seu conto está me fazendo pensar… Estou gostando muito da narrativa e essa escritora está cada vez mais creepy hehehe (é, eu rio como o Paulo 😛 )

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