Conto – Corpo em Águas Verdes – Parte 1

Este conto faz parte do projeto Em um mês, um conto – Edição Conto Policial. Boa leitura!

Sinopse

Giuliana Leite é uma escritora de suspense. Sua vida muda quando ela, em sua corrida matinal, descobre um corpo flutuando na Lagoa da Pampulha. Obcecada pelo seu primeiro contato com um crime real, Giuliana começa a investigar a vida da vítima — e vai tão fundo, que se torna suspeita do crime. Agora, ela precisa encontrar o verdadeiro culpado antes que se afogue nas águas verdes e profundas das consequências de um crime.

Corpo em Águas Verdes

Parte 1 – A Lagoa

Eu sei que estou morta. Não morri ainda, mas não vou sair viva desse porta-malas. Não sei para onde vou, mas não volto. As lágrimas descem com força, pois elas sabem que essa é a última vez. Sempre pensei que morreria com lágrimas doces — com a satisfação de uma vida bem-vivida. Jamais pensei que a água salgada seria de medo. Nunca pensei que eu morreria tendo a consciência de já estar morta. Eu sei que estou morta. Não morri ainda, mas não vou sair viva desse porta-malas. 

***

Estaciono o meu Onix preto no marco zero da Lagoa. Preciso manobrar duas vezes até acertar as linhas. Minhas mãos tentam, às cegas, encontrar uma máscara no porta-luvas. Elas encontram a vermelha de bolinhas — que não combina nada com as roupas berrantes de ginástica. Mas não acho que ninguém vai reparar no conflito de cores. É cedo demais para isso. O sol ainda nem nasceu direito.

Começo minha corrida diária e minha lista mental de tarefas para o dia. Preciso lavar o quintal, levar o gato para tomar vacina e, no trabalho, uma pilha de documentos aguarda minha revisão. Já sinto preguiça do dia que ainda nem começou. Pelo menos, parece que hoje não vai chover. 

Um casal passa por mim e ambos viram a cabeça. Sempre recebo olhares suspeitos por caminhar fora do caminho de concreto. Gosto de correr bem perto da Lagoa, no mato mesmo. Acho bonito ver o reflexo do sol na água. Lembra minha infância. Mas o que eu gosto mesmo… São os patinhos. Adoro ver os patinhos nadando para lá e para cá. Tão alheios ao que acontece aos arredores. Felizes, livres. Não entendo quem corre aqui e não aprecia a vista. Corram em outro lugar, malditos. 

Paro de repente. Uma forma estranha boia na Lagoa. Ainda estou perto do marco zero. Vou me aproximando, com medo. Não há ninguém ao redor. Começo a tremer, pois sei que não são os patinhos nadando. Torço para que seja lixo, afinal, a Lagoa é uma lixeira flutuante. Mas não. Sou uma escritora de suspense. Eu sei o que é. Um corpo. Encontrei um corpo. 

***

Nunca entendi por que não aparecem mais corpos na Lagoa da Pampulha. Poucas câmeras. Mato. É relativamente fácil afundar um corpo. O lugar perfeito. Se eu fosse um bandido, eu desovaria meus corpos aqui. Mas como não sou, ao contrário… Como investigador, sei que estamos fodidos. Vai ser difícil resolver esse caso. 

A PM, como sempre, já isolou o local. Miram, a perita, aproxima-se do corpo boiando. Entrar nessa água suja é quase como visitar Chernobyl. Credo. Os PMs conversam com a moça que ligou para o 190. Ela achou o corpo. Imagina só, acordar cinco da manhã para correr na Lagoa e… Encontrar a porra de um corpo. Isso que dá ser fitness. 

— Sou o Marcelo, investigador da Polícia Civil — me apresento e estendo a mão. — Seu nome, por gentileza?

— Giuliana. 

— Juliana, me conta o que aconteceu. 

Giuliana. Não Juliana. Com G. Pronuncia como se tivesse um “d” na frente.  

— Ok… Giuliana — Não sei por que a pronúncia certa do seu nome é mais importante que o corpo boiando, mas vamos lá… — Me conte como você encontrou o corpo.

— Bom, eu estava correndo aqui na Lagoa, como faço todos os dias. Gosto de caminhar perto da margem para ver os patinhos e as garças. Vi algo diferente e era o corpo boiando. Liguei pra polícia.

 — Que horas você encontrou o corpo? — Eu pergunto, analisando sua indiferença. Geralmente, quem encontra o corpo ou chora ou treme. Suspeita… 

— Era umas cinco e quarenta, algo assim — Giuliana com G responde com os olhos fixos no corpo sendo remexido pela Miriam.

— Não encontrou nada, nenhum pertence ou a bolsa dela aqui nos arredores?

— Não, senhor. Nada. Só o corpo. Boiando.

— Obrigado. Vou pedir que fique aqui mais um pouco. Nosso delegado pode querer conversar com você. Já já ele chega.

Dou de ombros e me afasto. A curiosidade mórbida das pessoas ainda me assusta. A moça simplesmente não para de olhar para o corpo. Estudo os seus movimentos. Ela parece prestar atenção em cada detalhe. Estranho. Muito estranho. Abro minhas notas do Keep e escrevo: Giuliana — encontrou o corpo — suspeita.

Deixo ela de lado e vou até a beirada da Lagoa. Os peritos estão tirando o corpo. Quando deitam o cadáver no chão, todos nós sentimos um peso no peito. 

— É aquela moça desaparecida — digo.

— Merda. Esperava encontrar ela viva — rebate Miriam. 

— Você sabe. Moça bonita que desaparece… Quase nunca volta viva. Agora precisamos descobrir quem fez isso. 

Caminho pelos arredores, tentando encontrar na grama qualquer indício, qualquer pista. Pelo estado do corpo, parece que ela foi jogada na água hoje mesmo. Enquanto anoto a informação, escuto Giuliana com G perguntar aos peritos:

— Vocês costumam encontrar muitos corpos aqui na Lagoa? 

***

Encaro o meu quadro de cortiça. Um colega da polícia me disse uma vez que isso é coisa de filme. Na vida real, ninguém faz isso. Mas eu sou escritora, não policial. 

Eu sempre quis encontrar um corpo. Na verdade, sempre quis sentir o cheiro de decomposição. Sempre descrevem nos livros, eu descrevo. Mas nunca senti. Uma pena o corpo dela estar tão novinho. Se tivesse se decompondo, teria sido mais legal. Talvez o cheiro se impregnasse na máscara vermelha de bolinhas. Me censuro quase imediatamente. Preciso saber mais sobre a vítima para humanizá-la. Preciso sentir compaixão pela morte. Por ela. 

Abro o Google e crio um alerta: corpo + Lagoa da Pampulha. Espero ansiosamente.

***

Pego o inquérito da vítima. Desaparecida há dois dias. Brigou com o namorado na noite que desapareceu, mas ele foi descartado como suspeito. Ela saiu do apartamento e não voltou mais. Os investigadores checaram as câmeras de segurança e nada do namorado. Só ela, sozinha. Os vizinhos ouviram barulhos no apartamento. Ele ficou lá. Estranho. Muito estranho. Ligo para Daniel, o delegado:

— Precisamos conversar com o noivo. Sempre é o cônjuge. 

— Você viu que o pessoal de Desaparecidos descartou ele, Marcelo.

— Acho que temos que checar. Antes era desaparecimento, agora é homicídio. E você sabe quem geralmente é o culpado.

— O cônjuge — ele responde, mas algo me faz lembrar da moça que encontrou o corpo. Suspeita. Tudo suspeito. 

Encaro a foto de Bianca. Uma moça jovem, linda. Linda demais para morrer assim, boiando na Lagoa da Pampulha. 

***

Meu ipad apita e corro para ver o e-mail. Alerta do Google. Matéria no Estado de Minas. O nome da moça na Lagoa é Bianca Chaves dos Santos. Sorrio e deixo meus dedos me levarem até o Facebook dela. Meu Deus. Ela era linda. Começo a ler as mensagens no seu feed, todas expressando o desespero e a urgência em encontrá-la. Eu a encontrei, sinto vontade de responder. Morta. 

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12 Comments

  1. Amei demais! A atenção que você dá aos detalhes e às descrições sempre me faz sentir como se estivesse presente nas cenas. Também gostei muito da existência de dois narradores, duas visões diferentes da mesma história. Certeza que as próximas partes vão ser ótimas também. Ansiosa!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Adoro como o texto vai se completando em pequenos textinhos. Acho que, se o Bandeira sintetizou a forma como a sociedade de sua época via a morte no Poema tirado de uma notícia de jornal, a Paloma sintetizou como nossa sociedade vê a morte, em pequenos anúncios, rápidos e passageiros, em pequenos jornais de 25 centavos (q misteriosamente custam 50 centavos aqui em BH).
    Incrível.

    Curtido por 1 pessoa

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