Crônica – Onde Encontrar Histórias?

Esses dias, tive uma crise de choro enquanto ouvia músicas que marcaram minha infância. Não lágrimas comedidas de nostalgia, mas sim soluços e baba escorrendo pelo canto da boca. Não obstante, um beicinho se formou nos meus lábios e, em um muxoxo, concluí que eu simplesmente deveria ter aproveitado mais. 

Como vou ser escritora se não tenho nem história para contar? Foi o que eu me perguntei. Vou escrever textos sobre como eu choro em um sábado à noite? Temia que a resposta fosse sim. Levanta do sofá e vai viver um pouco, então. Vai procurar histórias. Levantei mesmo e fui. 

Encontrar histórias não é nada fácil. Pior ainda é tentar vivê-las, de carne e osso. Ainda me lembro de quando estava escrevendo uma cena de briga, e pedi a um ex-namorado jogar limonada na minha cara. Eu precisava descrever como a personagem se sentia! Quais são os sentimentos de se ter limonada jogada na cara? Ainda não os sei, mas foi bem divertido. Nunca terminei a cena.

Decidi ir até o shopping porque é para onde as pessoas vão. Vi um menino de 5 anos deitar no chão e rolar. Literalmente. Os pais sorriam e tiravam fotos. Perguntei-me como é que pais se sentiam. Mas aquela não era a minha história. No corredor seguinte, meus olhos foram até um casal jovem. Os meninos seguravam as mãos, mesmo apesar de todos os cenhos franzidos e as caras de estranheza que passavam por eles. Que corajosos, eu pensei. O amor sempre é. Mas aquela também não era a minha história.

Meu próximo destino foi a praça de alimentação. Certamente, narrar pessoas comendo hambúrgueres gordurosos me garantiria um prêmio literário. Enquanto lambia meu sorvete, sentimento-me sozinha e bem boba, percebi que observar as pessoas não era viver as palavras de carne e osso. O que é que eu deveria fazer, então? Rolar no chão como o menino de onze anos?  

Talvez você não precise viver, de fato, o que escreve. Talvez você ainda aproveite mais a sua vida, tentei me consolar. O problema do talvez é que ele conforta demais, vicia demais, e você acaba por passar a vida assistindo o viver dos outros. Onde é que eu vou encontrar minhas histórias? Em casa, enfrentando o branco da página, lembro-me do menino rolando no chão. Escrevo linhas e minhas linhas sobre ele. Sorrio. Acho que encontramos histórias onde é que a gente esteja, desde que prestemos atenção. Mesmo que nós a vivemos, de carne e osso. Dou de ombros e me jogo no chão, rolando de um lado para o outro. Só por garantia… 

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