A Menina sem Nome – Parte III

Antes de iniciar a leitura, coloque esta música para tocar.

O despertador tocou às 07:00. Nuvens pesadas desenhavam o céu. Mirela acordou com os olhos presos de remela. Havia baba no travesseiro. O lençol havia sido todo movido de lugar. Mais uma péssima noite de sono. Sentia-se quase ridícula. Era uma renomada escritora de terror, adorava ler a bíblia satânica de LaVey e nunca sentia medo de filmes. Porém, o sapo morto, o gato às 3 manhã e a areia na cozinha tinham mexido com seus nervos. Tudo coincidência, Mirela, ela disse a si mesma. Você está sendo muito boba

Queria ligar para Paulo, mas jamais ousaria admitir que estava com medo, especialmente para ele. Lavou o rosto e abriu todas as janelas. O calendário avisava que era sexta-feira, dia 23 de outubro. Precisava finalizar o conto para o projeto que participava. Bufou. Agora era tarde demais para mudar a história. Já havia começado a sua trama com a Menina sem Nome. Agora tenho que terminar.  

Mirela mordiscou uma torrada de pão de forma e se sentou no sofá. Apoiando o notebook no colo, deixou os dedos conduzirem a história. Evitava pensar demais. Decidiu que colocaria no conto todos os eventos sinistros que aconteceram. Não há inspiração melhor do que a vida. Quando as ideias pareciam se esgotar, ela deu play em sua playlist macabra. Burzum começou a tocar. Ela sorriu. 

Enquanto murmurava a letra da música, Mirela se recordou do caderninho de anotações que levara para Recife. Poderia utilizá-las no conto para dar mais profundidade às descrições. Correu até o quarto e o agarrou com força. Leu:

Túmulo mais visitado

Colorido, amarelo

Inúmeras bonecas feias e estranhas

Acham que é santa, pedidos

Morta na praia

1970

Amarrada – mãos para trás

Laço no pescoço

Não sofreu vio. sexual

8 anos

Sem identificação 

Enterrada na areia

Mirela se decepcionou consigo mesma. Não havia nenhuma nenhuma informação nova ali. Ah, sua burra, você rascunhou umas ideias no outro caderno! Relembrou-se. Buscou a mochila que usara no dia da visita ao cemitério. Encontrou-a dentro da gaveta do armário de sapatos. Notou que ela estava mais pesada do que se lembrava. Estranhou. 

— Mas eu tirei tudo — falou baixinho.

Sentiu medo de abri-la. Poderia ser um sapo morto ou coisa pior. Jogou a mochila no chão com força. Ouviu um baque surdo. Não parecia ser nada vivo. Abriu-a lentamente, pronta para correr se fosse necessário. Assim que o zíper alcançou o fim do trilho, Mirela começou a rir. Eram livros. Livros que havia comprado em Olinda. Gargalhou aliviada.

— Acho que é melhor a gente tomar um café — Mirela se auto-convidou. Conversar sozinha era uma prática comum. 

Ainda rindo, ela foi até a cozinha. Seu ponto focal era sempre o fogão brilhante e de aço inoxidável, mas não hoje. Os globos oculares foram direto para a mesa de granito, que ficava no meio da cozinha. O coração de Mirela parecia que tinha parado por um momento. Todos os membros tremiam. Não conseguiu prender o grito na garganta, então berrou a plenos pulmões. Berrou até o barulho fosse cortado por soluços do seu choro. 

— Puta que pariu — murmurou. 

Em cada uma das cadeiras, que era quatro no total, sentavam-se bonecas rechonchudas e de plástico. Iguais às bonecas feiosas que enfeitavam o túmulo da Menina sem Nome. Elas pareciam se preparar para tomar chá. As xícaras de Mirela repousavam na mesa. Tem alguém te trollando, sua razão a fez pensar. Mirela correu pela casa, vasculhando cada canto, cada cômodo. Nada. Foi até a garagem. Nada. Conferiu se o portão tinha sido arrombado. Nada. Deu-se conta de que não havia visto Drácula em nenhum lugar. O pânico voltou. 

— Drácula! — Gritou. — Psss, psss!

Concluiu que precisava sair daquela casa o mais rápido possível, mas não sem o gato. Ele era praticamente seu filho. Voltou para a cozinha. Agora, um novo item havia sido adicionado à mesa. Uma grande travessa funda de porcelana branca que era da sua avó. Mirela nunca havia a usado por medo de quebrá-la. Agora ela estava lá, no centro das bonecas e suas xícaras de chá. 

Mirela se aproximou com asco e cautela. Queria ver o que a travessa continha. Drácula, eviscerado e partido em pequenos pedaços, jazia ali. As xícaras estavam cheias até o máximo com sangue. Mirela caiu de joelhos. Era como se todos o medo que não havia sentindo todos esses anos tivesse sido guardado em seu âmago, e agora explodia com uma força sobrenatural.  

Ela observou suas lágrimas caíram no piso da cozinha. Teve medo de se levantar. Engatinhou para longe da mesa, até o corredor da casa. Um rasto de areia fina de praia parecia ir até a sala de TV. 

— Não, não, não, não — sussurrou. 

As pernas de Mirela ficaram quentes. Sua urina descia das coxas finas até os pés. O estômago doía tanto quanto aquela vez que Paulo havia dados inúmeros socos em sua barriga por ciúmes. Não havia ar suficiente em seus pulmões, pois sentia que estava se sufocando. A música tema do filme Suspiria começou a tocar. Alguém estava mexendo em seu notebook. Alguém estava dentro da sua casa. Merda

Arrastou-se de volta para cozinha, temendo fazer qualquer tipo de barulho. Levantou-se de forma capenga, quase caindo. Pegou uma faca, a maior que encontrou, e o molho de chaves. Não iria até a sala. Não seria burra como os personagens de filme de terror. Iria correr, mesmo de camisola e toda molhada de lágrimas e urina. 

Antes de atravessar a soleira da porta, ouviu um gemido gutural que parecia crescer mais e mais. De repente, o barulho se tornou mais alto que a música. Mirela girou o pescoço, inativamente, e não viu nada. Continuou a correr até chegar no corredor que levava à garagem. A janela da sala de TV dava para esse corredor. A janela estava aberta. Mirela teria vomitado se tivesse comido alguma coisa. Estava em pânico total. Não queria passar perto daquela janela, mas não havia outra opção. A música parecia mais alta ali, e o gemido gutural também. 

Respirou fundo, tentando ser o mais racional possível, mesmo não sendo capaz de encontrar uma explicação sequer para o que estava acontecendo. Aproximou-se da janela. Passaria de olhos fechados. Enquanto movia os pés para frente, os gemidos se tornaram uma tosse rouca. Continuou a caminhar de olhos fechados, mas havia um degrau no corredor. Ela precisava de sua visão. Não podia se dar o luxo de cair. 

Mirela abriu os olhos e foi invadida pela curiosidade. Estava quase de frente à janela da sala. Havia uma figura lá, espreitando. Mirela girou o pescoço, incapaz de se conter. Reconheceu as feições que a encaravam de volta, mesmo sem poder acreditar no que via. Impossível

— O que você está fazendo? — Mirela perguntou.

— Você achou que eu não ia descobrir? — Paulo respondeu com calma e frieza.

— O quê… 

— Eu sei o que você fez antes de viajar, Mirela. Eu sei que você deu para aquele amiguinho seu. Sua cadela traidora! Devia tomar mais cuidado com o que escreve na porra do Whatsapp. Ou trocar a senha do celular!

— De namorado violento vai passar pra assassino? — Mirela perguntou, sem forças. Deveria ter se lembrado que Paulo tinha as chaves de sua casa. Ainda segurava o molho de chaves nas mãos. Se fosse rápida, poderia abrir o portão e correr. Ele correria atrás, é claro. Desejou que a figura olhando para ela fosse a Menina sem Nome. Teria doído menos. 

— Não vou te matar. Só queria te mostrar que você é uma medrosa do caralho. Se acha a fodona porque visita cemitérios, quando é só uma puta assustada. Eu disse que iria te fazer pagar. 

— Você matou o Drácula — Mirela murmurou com tristeza. Estava tomando cuidado com as palavras. 

— Gato chato da porra. Matei mesmo. Vai fazer o quê? Ligar para polícia?  

Mirela se sentou no chão, incrédula. Havia lido diversas vezes que homens violentos podiam passar de uma mão forte tampando a boca para um soco, e de um soco para uma surra. E de uma surra para feminicídio. Suspirou. Desejou que fantasmas fossem reais. Teve a certeza de que sentiria menos medo da Menina sem Nome. 

— Me inspirei nos seus livros. Gostou? — Paulo perguntou enquanto aparecia em sua frente. Ambos estavam agora no corredor. 

Ela não respondeu. Paulo segurava um facão. Não havia nenhuma chance contra ele. As lágrimas começaram a descer. Se corresse pela rua, ele a alcançaria. Não havia o que fazer. Lembrou-se de quando tinha 13 anos e sofria bullying na escola. Tentara faz um pacto com o demônio para ganhar poderes e se vingar. Satã não quisera sua alma na época. Agora, ela sequer acreditava em sua existência. Fez uma prece. É o que as pessoas desesperadas fazem, não é? Disse para si mesma. Mas a suplicia não foi para Deus. Pensou em todos os pentagramas de cabeça para baixo que desenhara, todas as cruzes que havia virado, o 666 tatuado em seu braço. Eu preciso que você seja real

Paulo a encarava. Havia um veneno em seus olhos e um sorriso tímido em sua boca. Mirela precisava agir. Satã não a respondeu, mas sua racionalidade sim. Tinha um plano. Jamais poderia contar com ajuda divina ou espíritos. Nada disso existia. Só poderia contar consigo mesma. 

— Paulo — ela murmurou com a voz trêmula. — Foi você que fez tudo? O sapo, a areia…

— Sim. Genial, né?

— Foi você que colocou todos aqueles ratos mortos na minha cama?

— Ratos?! — Paulo franziu o cenho, confuso. 

— Sim, os ratos mortos. 

— Não coloquei rato nenhum na sua cama.

Mirela franziu a testa, mostrando dúvida.

— Que estranho… E como você fez para dar a ilusão que uma menina me observava enquanto eu dormia?

— Eu não fiz isso. Dormi no sofá da sala para você não me ver.

— Mas tinha alguém no meu quarto hoje. De madrugada. Uma menina. 

— Endoidou de vez, Mirela? Não tinha ninguém! Era eu! 

— Paulo… — Sua voz falhou enquanto levantava o dedo da mão esquerda para apontar. — O que é isso atrás de você? 

Paulo girou o corpo para olhar na direção que Mirela apontava. Ela se levantou em um supetão e cravou sua faca nas costas de Paulo, o mais fundo que conseguiu. Ele se voltou contra ela, uivando de dor. Ela enfiou a faca mais algumas vezes, até que ele ficasse imobilizado no chão.

Mirela começou a rir. Paulo sangrava e se contraiu de dor. Ela se imaginou como Norman Bates e esfaqueou Paulo teatralmente, como no filme. Começou a cantar baixinho a música Helena dos Misfits enquanto brincava com a faca contra o corpo de Paulo. Não sabia se ele estava morto ainda. Não importava. 

Sua camisola branca agora estava suja de urina e sangue. A casa, cheia de areia espalhada. As vísceras de Drácula boiavam na travessa, como uma sopa de sangue e gosma. Paulo sangrava no corredor. Mirela sorriu, passando a mão em sua tatuagem de 666. 

— Você me deixou na mão — gritou, olhando para baixo. 

— Deixei mesmo, meu bem? — Uma voz grave e pastosa ecoou em seus ouvidos, tão próxima que parecia vir de dentro da próxima cabeça. — Agora, basta me dizer o seu nome.

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