A Menina sem Nome – Parte II

Antes de iniciar a leitura, entre o no site Rainy Mood e dê play.

A chuva grossa batia contra as janelas. Mirela, descalça, correu para fechar as janelas. Com movimentos rápidos, saltou pela casa, passando de cômodo em cômodo. Antes mesmo de perceber, estava fazendo aquilo que chamava de escrita imaginativa ― quando o escritor tece histórias em sua mente, mas não no papel. Estava animada com o conto da Menina sem Nome e precisava terminar a narrativa naquela manhã chuvosa e cinza de sexta-feira. Não sabia qual direção a história iria tomar, porém, tinha absoluta certeza que envolveria areia, bonecas bizarras e assombrações. Sem aviso, flashes do sapo se decompondo invadiram sua mente. Ela deu de ombros. Foi só uma coincidência louca. Lembra quando você era pequena e apareceu um gambá morto no quintal? Nada demais. Bichos aparecem. 

O último cômodo, ao final do corredor, era a sala de TV e seu escritório improvisado. Sempre mudava de um espaço para o outro, na tentativa de melhorar sua produtividade. Seus pés descalços agora estavam respingados de chuva. Voltou a pensar no conto e no túmulo da Menina sem Nome. Sua morte havia sido brutal e misteriosa ― como os escritores gostam. Mirela era facilmente seduzida pelo obscuro. Gostava de cemitérios, caixões, morte. Escrever horror era natural para ela. Não sentia medo, nem em uma manhã nublada e chuvosa de sexta. 

O chão da sala já estava molhado por causa da chuva, que agora parecia formar pequenos pedaços irregulares de granizo. Merda. Na ponta dos pés, equilibrou-se para arrastar o lado esquerdo da janela de vidro. A chuva parecia golpear contra ela. Apressou-se para fechar o lado direito, que emperrou. Merda. Seus braços magros fizeram força até a janela ceder, deslizando rápida e depois suavemente até o encontro do outro lado. Mirela fechou o trinco e colocou os canos de PVC nas laterais da janela, precauções importantes para uma mulher que mora sozinha. Pensou na Menina sem Nome, e como ela morreu. Amarrada. Sufocada. Enterrada na areia. Sozinha. Não-identificada. Escreveu mais em sua cabeça. Enquanto encaixava o cadeado no trinco da janela, uma pancada forte na cabeça a fez cair. Mirela segurou um grito na garganta, e seus músculos se tornaram rígidos. Gotas de sangue deslizavam por sua testa. Em sua frente, os trilhos da persiana jaziam no chão. Ela arfava e as mãos tremiam. A chuva ainda batia contra a janela. Olhou para cima e viu o que a acertara. É só a persiana com defeito, ela tentou se acalmar. Mas se é só a persiana, por que eu estou me sentindo assim?

•••

Paulo acordou às 07:43, sem despertador. Ligou o WiFi em busca de mensagens. Mirela gostava de trocar o dia pela noite, então, ele sempre recebia memes e peripécias ao se despertar. As notificações do Whatsapp o frustraram. Nenhuma era de Mirela. Paulo franziu o cenho. Que estranho… 

Uma notificação, no entanto, chamou sua atenção. Mirela não havia falado com ele durante a noite, como era de praxe, mas havia publicado a segunda parte do conto estranho sobre a menina do cemitério. Ele leu:

(…)

— Podemos visitar o túmulo da Menina sem Nome? — Eu pergunto.

— Você que manda, meu bem. 

— É o túmulo mais famoso do cemitério — eu explico com empolgação. — Pertence a uma menina que foi encontrada morta na Praia do Pina em 1970. Ela tinha cerca de 8 anos. Foi bem macabro. 

— E é?! Já ouvi falar! Ela foi violentada, não foi? — Murilo pergunta enquanto brinca com as flores que ornam o túmulo de Manoel Borba.

— Na verdade, não. Quando ela foi encontrada, na época, pensavam que ela tinha sido violentada, mas a autópsia revelou que não. 

— Como ela morreu, então?

— Foi amarrada com as mãos para trás, e um tinha um laço apertado no pescoço. Enterraram ela na areia. A causa mortis foi asfixia. Mas o que mais intriga é o fato de que ninguém foi reconhecer o corpo. Ninguém deu falta dela. Enterrada como a Menina sem Nome. 

— Meu Deus, que horror. Por que você sabe dessas coisas, amiga?

— Porque eu curto necroturismo. Vamos lá? Acho que é por aqui!

Seguro a mão de Murilo e o arrasto comigo até a direção que, segundo o mapa, fica o túmulo da Menina sem Nome. Não é difícil encontrá-lo, pois é uma mistura de cores entre o cinza e preto dos jazigos tradicionais. Como uma criança na véspera de Natal, saltito me desmanchando em sorrisos até o túmulo, dando uma volta de 360 graus em volta dele. 

— Meu Deus, que bizarro — Murilo reclama e eu sorrio. 

— Lindo demais, né?

O túmulo da Menina sem Nome é pintado de amarelo. Em cima da sepultura simples, foi construído pilares e um teto. Em cima desse teto e da sepultura, inúmeras placas, casinhas e bonecas enfeitam a morada eterna da Menina. Em frente, há um espaço para queimar velas.

— Por que esse tanto de boneca? — Murilo pergunta.

— Acreditam que ela faz milagres. Por isso, as placas de “benção alcançada”. A Menina é uma mártir praticamente.  

Murilo contorce os músculos da face e eu saco o meu celular para registrar cada detalhe, já imaginando todas as postagens que poderei fazer no Instagram. Em uma das pilastras, há uma moldura simples, quebrada ao meio, com a foto do cadáver da Menina sem Nome e a seguinte inscrição:

“Ela que se foi sem nem ao menos saber os motivos que a tiraram do Mundo tão Brutalmente.

22 – 06 – 70

3 P. N. – 3 A. M.”

Tiro fotos das bonecas empilhadas uma nas outras e sorrio. Não tem nada mais bonito do que algo extremamente bizarro. 

— Podemos ir embora? Ainda vamos visitar o centro histórico de Olinda…

— Sim! Tem uma igreja lá que dizem ser assombrada por um frade! 

— Meu Deus, eu preciso parar de ser seu amigo.

Paulo terminou a leitura com a testa contraída. Abriu a conversa de Mirela e digitou: 

“Bom dia, linda

Li o seu conto

Gostei muito

Mas meio pesado, né?

Vc não me mandou mensagem ontem 

Tá td bem?” 

Estava preocupado com Mirela. Desde que chegara de Recife, estava agindo de forma estranha. Ainda mais depois do incidente… O estômago de Paulo revirou ao se lembrar de estar na casa de Mirela limpando os restos do sapo em decomposição. 

•••

Mirela acordou com o miado estridente e irritante de seu gato. Ela conferiu o relógio. 03:14 da manhã. Gato nojento

— Drácula! Vem aqui! Psss, psss — ela gritou. 

Arrastando o corpo para fora da cama, Mirela viu um borrão passar da porta até sua cama. Drácula. Ele se escondeu no banheiro da suite, ainda miando. Mirela acendeu a luz do quarto, confusa. 

— O que foi, meu bem? — Ela perguntou.

Suspirando, foi até o corredor da casa verificar o que estava acontecendo. Seus olhos encontraram um par de olhos. Outro gato. 

— Ei, vai embora. — Mirela ordenou.  

O gato rosnou alto e seus pelos se eriçaram. Ele era amarelo, grande, gordo. Mirela deu um passo para trás, com pressa, e se fechou no quarto com Drácula, que ainda miava de medo.

Drácula arranhou a perna de Mirela até que ela acordasse. Mal se lembrava do gato amarelo que invadira sua casa. Ligou o celular e se deu conta de que havia esquecido de enviar mensagem para Paulo. Mas, pelo menos, estava recebendo bons comentários sobre a segunda parte do seu conto. Sorriu.

Enquanto seus pés se moviam lentos até a cozinha, Mirela desejou que Paulo estivesse ali para lhe fazer café e uma massagem nos pés. Estava exausta. Tentando vencer a preguiça, abriu a porta da cozinha. O cheiro de quintal molhado era delicioso. Atravessou a soleira para acariciar os pingos ralos de chuva de caíam do céu. Quando voltou para cozinha, encontrou, em frente ao fogão, um punhado de terra molhada. Agachou-se para investigar. Gato amarelo maldito. Enquanto analisava os grãos, deu-se conta de que não era terra, mas sim, areia de praia. De onde veio isso? Perguntou-se, mas temia já saber a resposta quando se recordou do que escrevera noite passada.  

Não se esqueça de deixar um comentário! 

Gostaria de agradecer ao maravilhoso Bruno de Souza, também conhecido como Supercobal, por ter feito a fanart mais linda desta mundo, que ilustra a postagem de hoje.

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