A Menina sem Nome

Este conto faz parte do projeto “Em um mês, um conto“. As partes II e III serão publicadas nos dias 16 e 23 de outubro, respectivamente. Espero que gostem!!

Parte I

Mirela ligou o chuveiro, deixando a água gelada escorrer por toda extensão do corpo magro. Estava desesperada para se ver livre de todo o suor que impregnava a fronte e as costas. Não sentiu vontade de cantarolar e nem de esfoliar o rosto. Não seria um banho ritualístico de relaxamento. Era pragmático: limpar toda a transpiração. Brincou com seus mamilos enquanto a água escorria por sua nuca, até se sentir satisfeita com o frescor. 

Não pensou na roupa que vestiria, estava exausta demais para qualquer tentativa de combinação. Eu sequer vou sair de casa. Pegou a camisola cinza puída e colocou a primeira calcinha que encontrou na gaveta. O celular vibrava. Paulo chegara. Mirela bufou, perguntando-se até quando poderia sustentar aquela mentira. Não por muito tempo, concluiu.

— Meu amor, que saudades — Paulo a envolveu nos braços quase musculosos. 

— Eu também, amor — ela se esforçou para fingir empolgação. 

— Cê deve estar exausta, né?

— Tô sim, vou capotar na cama em breve.

Paulo sorriu. Ela sabia que não seria assim. Estavam há 15 dias sem se ver. Paulo estava ali não por saudades, mas porque queria transar. Mirela se sentou no sofá cinza, aguardando Paulo invadir seu espaço. Olhou de soslaio para a mala que precisaria desfazer, incerta do que exatamente acontecera em Recife. A única certeza que tinha é que não contaria nada a Paulo.

•••

Luciano estava empolgado. Pensara em mais um projeto literário promissor. Sacou o celular e ligou imediatamente para Mirela. Ele balançava os pés como se precisasse espantar as moscas. Mordiscou um biscoito velho que estivera em sua gaveta por tempo demais. Mirela demorou para atender a ligação. Quando atendeu, parecia ter algo errado com o seu tom de voz. Parecia cansada, rouca, amedontrada… 

Não deve ser nada, ela só está cansada da viagem. Luciano reuniu toda a sua empolgação e convidou Mirella para o seu projeto: reunir um grupo de escritores para escreverem um conto de terror durante o mês de outubro. Claro que Mirela, escritora veterana de gótico, não poderia estar de fora. Após repassar com ela todos os detalhes, Luciano esperou o silêncio que indicava ponderação. Por fim, ela respondeu:

— Claro, pode contar comigo. Eu já tenho em mente a história que vou contar.

•••

Mirela não sabia exatamente o que estava fazendo da vida. Teve certeza disso enquanto colocava a roupa suja para lavar. Odiava o trabalho, todas aquelas responsabilidades e problemas a resolver… Cada gota de energia gasta com coisas que não eram dela. Queria poder ter férias eternas, ter muito tempo disponível para escrever. Era isso que amava, mas quem é que pode viver de sonhos? 

Desarrumar a mala era a pior parte de viajar. Tinha de lavar o que estava sujo, passar, colocar de volta, organizar as maquiagens, perfumes, entregar as lembrancinhas aos amigos. Um saco. Ao menos, teria uma válvula de escape: escrever o conto para o projeto de Luciano.

Mirela não se considerava uma boa escritora. Era, na verdade, muito estudiosa. Fizera todos os cursos de escrita literária possíveis, contratara leituras críticas e participava de todos os eventos ao seu alcance ― mas ainda não se sentia . Sentou-se na escrivaninha e listou todas as tarefas do dia. 

(   ) desfazer a mala

(   ) lavar e passar roupa

(   ) ir no mercado

(   ) escrever 6 páginas do conto

(   ) ler os emails e colocar redes sociais em dia

Sabia que tinha de comer os sapos primeiro, lema que aprendera em curso sobre produtividade, e fazer a tarefa mais desagrável ― mas seus dedos estavam ansiosos para ouvir o som das teclas. Desta fez, não fez nenhum projeto de texto, nenhuma preparação prévia. Deixou o vômito de palavras guiar a história. Já estava a escrevendo, antes mesmo do projeto de Luciano, desde que saíra do cemitério de Santo Amaro, em Recife. Aquela história começou a se textualizar em sua mente no momento em que vira o túmulo bizarro, enfeitado por bonecas velhas. Escreveu:

Talvez não tenha sido uma boa ideia ter saído de casa ― é o que penso enquanto as gotas pesadas de chuva caem contra o cruzeiro da igreja do Carmo de Olinda. Leio a data apagada: 1704. Uma sensação de medo percorre minhas veias. Giro o pescoço ― obedecendo meus instintos, mas não há nada e nem ninguém ao meu redor. Você está ficando paranóica, Luísa! Todo esse necroturismo está fazendo mal. Lembro imediatamente das palavras do motorista de Uber quando eu lhe dissera o último destino do meu roteiro de viagem:

— Tem que tomar cuidado, minha filha. Quem muito procura, acabando achando… — O motorista velhinho e calvo dissera enquanto rumavámos para o cemitério de Santo Amaro, em Recife. 

•••

— Eu não entendo a graça de visitar cemitérios — Murilo, meu amigo recifense, diz enquanto saca o celular para checar as mensagens do Whastapp. 

— Isso se chama necroturismo, e é bem famoso da Europa — eu me justifico. — É lindo ver todo o simbolismo por trás das lápides!

— É coisa de gente louca — ele rebate, mas não deixa de observar os detalhes do primeiro túmulo que observamos. 

— Você sabia, Murilo, que quando vemos um pilar quebrado em algum jazigo, isso representa uma quebra na estrutura familiar? — Eu pergunto.

— Legal — ele responde sem animação. Sei que está fazendo um esforço enorme para estar aqui comigo. Tenho certeza que quando descobrira que sua amiga virtual de Minas Gerais viria visitá-lo, não imaginou que seria para conhecer cemitérios. 

Caminhamos em silêncio e eu observo as nuvens pesadas se aproximarem. Vai chover. Visita ao cemitério com templo nublado?! Melhor ainda! Meus olhos devem estar brilhando. Murilo para de frente a um túmulo muito bonito. Uma mulher, que parece grávida, está atrás de um leão. Uau. Muito impactante. As estátuas são feitas de ferro e a inscrição do túmulo diz “PERNAMBVCO NÃO SE DEIXARÁ HVMILHAR…”. Leio na plaquinha que informa aos turistas e curiosos que o túmulo pertence a Manoel Borba, um político importante. Murilo tira selfies e eu relaxo. Ele está se acostumando com o local. 

— Podemos visitar o túmulo da Menina sem Nome? — Eu pergunto.

— Você que manda, meu bem. 

— É o túmulo mais famoso do cemitério — eu explico com empolgação. — Pertence a uma menina 

Passou trinta minutos ininterruptos escrevendo aquelas palavras, até sentir que não poderia progredir mais sem cafeína. Não conseguiria prosseguir sem saber mais detalhes do caso. Toda escrita precisa de planejamento e pesquisa ― as regras da sua última professora de escrita ressoavam em seus ouvidos. A lista de tarefas a encarava. Mirela queria bater a cabeça contra a parede. Que vida de merda

Colocou a roupa para bater na máquina enquanto a água do café fervia. Abriu todos as janelas da casa, dando-se conta do silêncio amargo que ressoava pelos cômodos. Vou unir o útil ao agradável e colocar minha playlist de horror. A música tema de Psicose agora era o background de suas tarefas domésticas. Bem apropriado

Mirela foi até o quintal para colocar a roupa para secar. A área de serviços era coberta por um telhado vermelho e antigo, que impedia os janelas dos vizinhos do andar de cima espiarem. Ela sentiu um cheiro esquisito, franzindo o cenho. Parecia que vinha de longe. Era preciso investigar. Provavelmente, algum rato morto. Seu corpo se arrepiou todo. Tinha asco total de ratos. Ainda bem que Paulo estava na sua vida. É para isso que homens existem, limpar os ratos mortos da casa da gente

Conferiu atrás da máquina de lavar, por baixo dos panos de chão, dentro do armarinho onde ficava o sabão em pó. Nada. Deixou que seu nariz pontudo e fino a guiasse. O cheiro ficava mais forte perto da porta da cozinha. Essa merda de cheiro de decomposição. Odeio essa porra! Mirela praguejou baixinho. Sentia que era a única escritora de horror que não sabia descrever razoavelmente aquele odor.

Concluiu que o cheiro vinha do telhado. O rato morto deveria estar lá. Por sorte, o telhado era baixinho. Uma escada bastaria. Apesar do nojo, Mirela estava curiosa para saber o que estava apodrecendo em cima de sua cabeça. Quem sabe, poderia usar aquilo para uma futura cena. Adorava quando coisas bizarras aconteciam em sua vida e em sua literatura, por consequência.

Pegou a escada velha e, com cuidado, subiu até o último degrau. Seus olhos foram de encontro ao animal se decompondo. O estômago de Mirela parecia que iria explodir. Seus membros ficaram moles e ela apertou os dedos contra a madeira que segurava o telhado. As narinas dilataram e o suco gástrico invadiu a boca. Não era um rato. Era um sapo gordo, verde e feio sendo devorado por vermes brancos. Vermes para todo lado. Muitos vermes. O cheiro de carne sendo comida. A barriga do sapo aberta.

 Mirela desceu da escada em desespero, quase caindo. Quando chegou ao chão, vomitou o suco verde que estava em sua boca. Seu corpo todo se contraiu quando percebeu que sua playlist agora tocava Suspiria. De repente, rasgou as roupas do corpo. Parecia que estava coberta de vermes. Pulou, arranhando sua pele. Não encontrou nenhum verme. Sentou no chão, atônita. Que merda foi essa? 

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